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Querido menino
Querido menino, você fazendo 29 anos? Que coincidência! Eu também tenho 29! Como é que pode, não? Que importa se eu te mudei as fraldas, se te botei pra dormir, cantando “Boi, boi, boi da cara preta/ pega este mnenino que tem medo de careta/ que importa se eu te dei papinha de nenê na boquinha, e consolei o teu choro tantas vezes, se te contei histórias fantásticas, se fizemos bolinhos de areia na praia, se em MG, na fazenda do vovô Tião levamos uma corrida de uma vaca, e tinhas dois anos e eras um “boizinho” de grande e pesado , e eu corri feito uma doida, botando o coração pela boca, e a vaca ficou dando marradas na porteira, mas nós conseguimos chegar lá… e rimos, aliviados por nos termos livrado do perigo, – e se te dei banho no quintal, de mangueira, água gelada num mês de julho, frio pra danar, porque ‘alguém”, (VOCÊ)junto com seus primos Pedrinho, Helena e a irmã Cecília resolveram tomar banho de lama, num buraco aberto para uma piscina, e a as roupas ficaram num estado lamentável,mas VOCÊS FORAM FELIZES, É O QUE IMPORTA.
Então, fazes 29 aninhos! É hora de enfrentar a realidade, pensar no futuro, na filhotinha que Papai do Céu te deu, terminar o teu curso, parar de botar azeitona na empada do próximo, embora tenhas o coração sempre aberto para o outro, ter a consciência tranquila, nada te acuse de indigência, indiferença,incompreensão pra com as dores do irmão(ã),enfim, é hora de aproveitar bem todas as oportunidades que Deus te deu, tua inteligência, tua intuição, tua capacidade de Professor Pardal, que herdaste do teu pai e do teu tio- até onde eu sei, e como Sócrates, ” eu só sei que nada sei”. E é hora também de parar de blá-blá-bla, de te contar sermão, e te dar um beijo e um puxão de orelhas, porque és malvado para com uma vovó que tanto te ama, e não vens nunca me ensinar pela centésima vez como é que se opera esta máquina do Dianho. Deus te abençõe, meu filho, e te cubra de felicidades junto às pessoas que te amam.
Tua vovó de 29 anos
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Crítica Construtiva
Prezados Srs Organizadores da FLIP:Saudações fraternas.Muito saudáveis estes congressos e festivais literários que colocam em indiscutível evidência nossa pátria. É uma nova vertente, saudável , de Turismo. Seremos conhecidos no mundo, não só pela natureza exuberante, nem pela anatomia das nossas passistas, ou pela batida da nossa bossa nova. Não, Mundo! o Brasil também tem cultura! Se vierem aqui saberão ( saberão?)que temos excelentes escritores como Machado, Graciliano, Aluízio e outros que seria longo mencionar; temos músicos tão grandes como os de fora tais Carlos Gomes, Villa Lobos, Mignone, etc. sem falar em José Maurício, com sua humildade pobrezinha, a Arte está no nosso sangue -temos grandes pintores, escultores, temos a Fio Cruz, temos o Inca, tivemos Oswaldo Cruz, tivemos Manuel de Abreu, nem pensar no Pai da Aviação, temos Niemayer… . Mas infelizmente nossos governos não divulgam senão o que está acima grifado. Então os festivais como o da FLIP dão-nos(dão?) a oportunidade de sermos mais conhecidos no mundo, e assumirmos o nosso lugar no Panteão da cultura universal.Seria ideal se os festivais como a FLIP dessem mais apoio aos artistas nacionais. O elenco privilegia intelectuais que nem sempre são tão importantes na sua própria terra, mas que ficam muito honrados em ganharem todas as mordomias para virem faturar às custas de um povo ingênuo e deslumbrado com o que vem de fora. Será que eles, ao voltar para sua casa, nos dão este retorno? São gratos a quem lhes dá tudo: mordomias, prestígio( que às vezes nem têm tanto assim no seu lugar de origem, mas que agora venderão horrores, serão famosos, reconhecidos -tão importantes, que uma nação de tanta gente inteligente se dá ao luxo de babar aos seus pés?Veja-se o elenco de “artistas” convidados. Um ou dois brasileiros que participam são escolhidos entre os medalhões. Entre aqueles que já têm a seu favor a midia. Que não precisariam de publicidade.É preciso renovação. Há tantos e bons escritores que não têm esta exposição e que teriam muito a dizer, muito a contribuir. Dou um doce a quem me provar que qualquer evento desses lá fora privilegie tanto os escribas brasileiros! Nunca vejo “lá fora” propaganda da nossa cultura. Continuamos a ser vistos como índios selvagens, um país de bárbaros, onde há cobras enormes passeando nos calçadões de Copacabana, e perigosas onças nos nossos parques públicos, além de marginais perigosos e ladrões por todo lado. Quanto á cultura é preciso ir buscar lá fora uma meia-dúzia de bons-vivants, que ficarão ” eternamente” gratos por aumentarmos os seus lucros, que lançarão seus livros aqui, fazendo o pé-de-meia dos editores gulosos.Terão sucesso, e desejo-lhes muito mais. Mas fica o meu protesto.Rejane Machado -
Memórias
Aos dez anos a primeira página. Uma redação escolar, muito valorizada por uma professora primária, uma mulher sensível, cujo nome não guardei. Só a tratava por Atalita, que era o seu prenome. E não me lembro , absolutamente, da sua figura física. Parece-me que tinha a voz doce, os modos calmos- reconstituo alguns dos seus traços de modo indireto, a partir das recordações pessoais de minha mãe, que com ela trocou palavras dedicadas á aluna aplicada, que tinha jeito para escrever. Mas no verso da composição a sua letra bonita e firme deixou-me um recado, que no momento não foi de modo algum levado em conta, mas que funcionaria, mais tarde- porque tudo tem o seu tempo- quando uma indigesta predisposição a um estado depressivo ameaçava um coração machucado.
Naquele momento exato a mensagem de estímulo cumpriu sua destinação. Levantou o moral abalado por uma circunstância, que, afinal, nem devia ter sido assim tão importante, pois que se apagou de modo brusco. No bilhete, ela me recomendava apenas , ter “cuidado com os pronomes”, saudava o trabalho “literário” e vaticinava: “quem sabe, no futuro, não será você uma escritora?” E a minha querida mãe acreditava firmemente nisso. Devo a ela esse estímulo.
Alguns dias depois, enquanto ouvia a Sinfonia Pastoral, comecei a interagir mentalmente com aquele homem sofrido que caminhava pela floresta de Kahlemberg, profundamente integrado com a natureza, imerso em seus pensamentos, questionando os porquês da vida. Tão correto era ele, o coração amargurado pela ingratidão daqueles a quem amava, incompreendido a esconder uma deficiência física impensável a quem trabalhava com sons, Ele mesmo. O solitário mor. Então comecei a escrever: “ Ser solitário era por si norma e destinação…” Este conto , mandei-o para a seção literária do Diário de Notícias, de saudosa memória, excelente jornal fundado por Orlando Dantas. Um suplemento de várias páginas. Crítica, poesia, contos, reportagens literárias, entrevistas com escritores e intelectuais, tudo o diário abrigava. Altíssimo nível. E me pergunto porque não há hoje nada que se lhe compare. Por falta de público? Falta de matéria? Não creio em nenhuma desculpa dessas. Nem mesmo aceito que os tempos “modernos” ( que é isso?) não propicie mais lazer para as pessoas, etc, etc. Falácia maior não há. Para quem foi inoculado com o micróbio da cultura estas desculpas não servem. Tem-se uma grande necessidade de ler. A chamada mídia não resolve essa fome de cultura. A tevê é pobre, os jornais abrigam mais propaganda comercial do que outra coisa, afinal vivem dos anúncios, a política enoja, porque o que lhe poderia dar vida:- a ética, está em franco desuso. Afinal, revistas proliferam, publicações aparecem e desaparecem, vertiginosamente, engolidas por um sistema econômico de grande perversidade, ao qual não podemos fugir. É a maldita situação econômica. E os suplementos dedicados às letras encolhem, desaparecem, aos poucos. É a queda dos valores mais necessários ao sentido da existência.Apesar de proclamarem a morte da literatura ( em todas as suas formas) há um movimento ascendente e contínuo que não se pode deixar de reconhecer. Nem damos contas do montante de eventos , dos quais precisamos nos “defender”, tal a quantidade de convites , todos os dias , para novos lançamentos de livros, palestras, exposições. O que está havendo? Alguém me explica?
Comecei assim, mandando pelos Correios este primeiro conto, que foi publicado no dia de de 1968, pelo qual recebi, também pela mesma via um cheque do qual não me lembro o valor- o que não teve menor importância, senão pelo que representou : colocar-me num grande jornal, ao lado de “cobras”, iniciando um período de colaborações que se estendeu por muitos anos, a outros importantes veículos de comunicação: Leitura,Bancário, A Cigarra, Convívio, Ficção (revistas), Correio da Manhã, Jornal de Letras, Jornal do Brasil, onde sob a batuta do saudoso Lago Burnett, estacionei por longo tempo, fazendo agora somente crítica literária, alavancando autores estreantes, entre eles José Mauro de Vasconcelos( Meu pé de laranja lima), Rubem Fonseca ( A coleira do cão), Caio de Freitas ( Um canal separa o mundo)- e muitos outros que me mandavam seus livros.Data daí a minha amizade com Francisco Miguel de Moura, poeta de Teresina, Armindo Trevisan, de Porto Alegre e Carlos Nejar, também do Rio Grande, Nélida Piñon, Stella Leonardos, Waldemar Lopes, Ricardo Hofmann de Santa Catarina,meu Deus, quanta gente.
Nesse entremeio ganhei uma meia dúzia de prêmios literários. Durante os 4 anos em que estive na Faculdade de Letras, todos os anos tive o nome no Esso Universitário, fazendo o Professor, Doutor Afrânio Coutinho, “ confraternizar-se com o alunado desta Faculdade “ por este motivo. Aí veio o prêmio Orlando Dantas do JB/INL, outro prêmio da Academia Valenciana de Letras, o Fernando Chinaglia, o da Academia de Letras da Bahia, de onde me surgiu uma amizade com Jorge Amado, pois ele me prestou algumas informações para minha tese de Doutorado em Filologia Românica, colega, amigo e compadre que foi de Dias da Costa, o meu biografado de quem fiz uma biobibliografia levantando o prêmio de ensaio, além de me valer grandes amizades e emoções em Salvador, maravilhosa cidade.Outros prêmios vieram
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crítica ao conto Pastoral
Mensagem:
Oi Rejane
Li seu conto “Sinfonia Pastoral” ouvindo música clássica no meu
mp3,prá criar um clima estético.
Eu gosto muito dos cortes que você dá aos seus textos, esse
penetrar em outras esferas de pensamento/espaço/tempo, justo o que a
boa música nos proporciona: um universo paralelo onde a gente
cria/recria a realidade que nos interessa. Valeu !!!
Beijos.
Regina. -
O Livro ( Pedro Franco)
Prezada Rejane Machado:
Quando lhe envio um escrito, recebo de volta um prato com iguarias, com análise técnica acurada e por quem conhece literatura. Após ler o “O outro lado das coisas”, vou devolver um prato, contendo mariolas, que nem serão o batido gostei, não gostei, pois só gostei. E O Outro Lado começa muito bem e é necessário começar bem. E um olhar faz o livro começar em alto astral emocional. No meu livro de contos, 17 contos premiados, muitos amigos reclamaram por ter começado por Sansara e ter deixado o Dr. Negrão e o sabiá para último. Ainda que Monstro de olhos verdes seja um bom conto, Um olhar é um início enfático, que prende o leitor. Devo assinalar que achei o livro com contos coerentes, isto é, não transcorre entre picos e vales, sístoles e diástoles e também não fica no “plateaux” intermediário, pois tem um nível alto em todos os 16 contos. Sei como é difícil manter um padrão de excelência. Mas, mesmo destacando a qualidade geral, há contos que tocam mais e para mim foram: Sortilégio, uma história de vida simples, traída, revidada, com tragédia de permeio, mas que se finda na esperança, esperança simples, com viola, mas nem pela simplicidade o hino à esperança torna-se menor. E a filha de Dona Conceição, que jogava coisas no chão, para serem apanhadas, encontra guarida. Cotas e não é que alguém que é contra as cotas e até escreveu crônica sobre as mesmas, gostou do conto, visto do outro lado? Que o Governo pare de fazer demagogia e de fato ampare os Negões e os Alemães da vida. Ótimo conto. O Segundo dia: história triste, muito bem contada, por filho de mulher de malandro (aceita apanhar), para desespero deste filho pequeno. Uma tragédia, que acaba em tragédia. Conto que se mostra bem escrito e sem derramamentos. Destino: gostei muito, pois já tive uma cliente assim. _ Não aguento mais Fulano, quero ver a novela e ele me obriga a ver o jogo. Não agüento mais! Volta um mês depois e Fulano, que tinha de fato um gênio difícil, morreu. _ Era um ótimo marido, nem conseguia ver os jogos, se eu não estivesse ao seu lado. E tome choro sentido. Estava de fato desesperada. O amor é complicado! Termino, agradecendo o livro, lido no descanso de Itaipava, quando fugimos dos calores do Rio, neste fevereiro/março e dos achaques da idade, voltando agora para a luta diária, que de toda a maneira é bem vinda. Se não houvesse rotina, não haveria férias. O Outro lado foi ótimo companheiro, um livro que leva a reflexões, até para quem entende mais de uso interno, que de literatura.
Pedro Franco.
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Preconceito
Todo preconceito é odioso. Na etimologia da palavra já se percebe o absurdo de uma atitude anterior, feita sem base, no vazio, conclusão acabada antes de começar uma análise, e que vai dirigir a decisão final para um caminho que poderá não ser o mais certo ou o melhor.
O preconceito parte da má vontade e segue pela via da premissa apressada, mal ou não analisada em seus fundamentos, levando a uma falsa conclusão. De mim para o outro o preconceito é inaceitável. Intui que eu seja melhor do que o meu próximo. E melhor em quê, afinal, se tudo é relativo?
No dia 19 de novembro, domingo, no canal Brasil, cerca de 5 horas da tarde, a propósito do dia do Zumbi- consciência negra- assisti a um programa que pretendia debater o tema negritude. Três belas mulheres, inteligentíssimas, cultas e elegantes, um delas artista de novelas de TV, outra, doutora em, parece-me, sociologia ou similar, e a terceira desempenhando um alto cargo no governo- expunham bravamente em público seus pontos de vista, apontavam injustiças da sociedade, tentavam soluções, etc. com respeito ao problema.
Desfilaram supostas injustiças por conta da sua condição. Entre outros absurdos alegava-se que o negro não desempenha no contexto brasileiro um papel justo. E não só na vida real. Em novelas, diziam, se o tema é, por exemplo, escravidão, os negros são apresentados como figurantes ou como escravos, simplesmente, não lhes dando, os autores, oportunidades para encarnarem personagens com sentimentos ( foi isto que eu entendi: não desempenham papéis principais, sempre como empregados domésticos); atribuem- lhes sempre as piores tendências; anúncios comerciais mão contemplam as características do público negro; ganham menos em comparação com os brancos; são sempre discriminados nos locais públicos, e suprema provação:são-lhes negadas as oportunidades para acesso á educação superior.
Reconheçamos a injustiça histórica com respeito aos negros. A abolição decretada a 13 de maio não foi, realmente, uma libertação; provavelmente, para muitas pessoas, ali começava o verdadeiro calvário, porque vivendo em dependência extrema foram jogadas à vida , sem preparo ou recursos para sobreviver por sua própria conta.. Aquela grande mão-de-obra não foi absorvida como seria de desejar, muitos ficaram errando pelas estradas, morrendo à míngua, outros se suicidaram, por não encontrar recursos para continuar. E os quilombos se multiplicaram, trazendo problemas de todos os matizes: sociais, de moradia, de segurança, etc.
Muitas das queixas desfiladas não procedem. Não se está levando em conta que metade dos males atingem também, à população não-negra, que também sofre com desemprego, com moradias indignas, com discriminação social, sem acesso à educação, aos bens maiores de consumo,etc., como um todo da população brasileira. Mas é preciso ser cego para concordar com todas as reclamações.
No quesito TV penso que há exagero nas queixas. A televisão acolhe generosamente a todos os que têm talento. Será exaustivo mencionar a grande quantidade de comunicadores negros, apresentando jornais, fazendo reportagens, e outras funções; nas novelas; mesmo não sendo habitué do gênero, poderia citar vários trabalhos em que artistas negros fizeram com sucesso, papéis principais: Chica da Silva, Da cor do pecado, Cobras e lagartos, como exemplo, desempenhando com muito sucesso e competência, papéis relevantes, principais, mesmo, nas tramas. Cidade dos homens mostrou o cotidiano de jovens favelados, enfatizando nobres caracteres, dentre a crueldade do tema decorrente do contexto de gente pobre e infeliz- não importa se negros se brancos, excelentes atores que fazem papéis inesquecíveis, nem sempre encarnando domésticos.E os brancos que vivem eternamente personagens empregados domésticos, feirantes e quebradores de galho,- tal como na vida real?
Já é tempo de os negros deixarem, eles sim, de ser tão preconceituosos! Têm que aceitar suas dificuldades de vida como contingência da sorte. Ninguém pediu para nascer branco ou preto, e se nasceu , o que tem a fazer é conformar-se, tanto como quem nasceu deficiente físico ou mental. Não é culpa da sociedade. Ele que vá à luta para reverter situações de pobreza, de auto-estima, de mais-valia. Ouso dizer que nosso preconceito é social, e não racial. Primeiro, porque a raça é uma só: é a raça humana; segundo, porque seria exaustivo nomear todos os negros e mestiços que vencem e venceram na vida, que se destacaram e destacam nos esportes, na cultura, nas artes do Brasil. Se sofremos o carma da escravidão é natural que nossa população demonstre essa influência, esse componente da nossa formação étnica, que aliás, deu um maravilhoso resultado no que tange á aparência . Mas é preciso reconhecer que o negro que tem valor , que luta e vence, é respeitado. O problema é deixar os complexos de lado e se assumir tal como Deus nos fez.
Preconceito existe em todas as áreas: a mulher que dirige é sempre culpada pelos acidentes de trânsito, não importa que sua carteira não apresente nenhuma infração às leis; o velho que se desloca nas ruas é xingado porque anda devagar e atrapalha os jovens que têm pressa; os muito gordos são ridicularizados, os muito magros, igualmente; os escolares são maltratados pelos motoristas e trocadores de ônibus, não importa lá que cor tenham; brancos mal vestidos são convidados a usar o elevador de serviço, tal como negros mal vestidos. Há preconceito contra o nordestino, o pobre paraíba¨ que nos constrói as casas, que nos cuida os condomínios; há preconceito contra os gringos, contra os lusos, os baixinhos, os gordos, os magros…
Uma das doutoras queixava-se de nunca ter visto na televisão anúncio para seu cabelo. E ela mesma usou a palavra¨pixaim¨. Pois eu vejo a todo momento anúncios para xampus para cabelos secos /ondulados/ lisos/crespos. Por quê ela não se enquadra nessas classificações? O que é cabelo pixaim? Só conheço aquelas definições acima. Imagine se se ouvisse na tevê um demonstrador fazendo reclame de xampu para cabelos ruins, sabonete próprio para peles negras? A grita seria geral.
Muito positivos são esses programas, em que pese o absurdo daquelas colocações. Reivindicando, injustamente, um maior reconhecimento dos poderes públicos e da sociedade em geral, só por causa de um grande equívoco, afinal ninguém tem culpa por ser negro. Ninguém escolhe a cor com que pretende nascer, a sua ou a de seus descendentes.
Biológica e fisiologicamente não há diferenças entre os seres humanos.Todos temos os mesmos característicos, com pequenas diferenças individuais. Se se descascar a pele escura de um negro ou mestiço e a de um branco, colocando-os lado a lado ninguém poderá dizer: este é o corpo de um branco, este é o de um negro! Não há ninguém no mundo, que, através do exame de sangue de um negro e/ou de um branco possa diagnosticar a quem pertence este, a quem pertence aquele. A fisiologia de ambos e as necessidades básicas como pessoas humanas são as mesmas; então, onde estão as diferenças? Vamos parar com isto? Vamos parar de enxergar chifres em cabeças de cavalos e encarar as coisas como são. Temos no Brasil, em todo os setores de atividades brancos bons e maus cidadãos, como também temos negros bons e maus cidadãos. Temos juízes, ministros, artistas negros . Têmo-los talentosos, e não-talentosos, não importa se de um grupo ou de outro- escritores, pensadores, professores, artistas plásticos, músicos- nosso povo é realmente especial.
Por último justificou-se as famigeradas cotas para a universidade que supostamente beneficia a população negra. Não se leva em conta grande maioria de população de não-negros carentes, pobres, moradores em favelas.
A cota reforça o preconceito, porque pressupõe incapacidade para enfrentar o vestibular, os negros são incapazes, coitadinhos, não podem competir com os brancos, são inferiores e precisam ser favorecidos com essa vantagem. Não se leva em conta que não há injustiça, o que há é um funil, motivado pela pequena oferta em oposição á grande procura pela universidade. No cartão de respostas do vestibular não há sequer fotografia, e só se pede marcar as respostas, não se podendo saber se é de um aluno branco ou não branco. O remédio é investir nos cursos fundamental e médio de boa qualidade, com muita fiscalização pelo Ministério da Educação, com oportunidades iguais para todos. Nada de cotas humilhantes para corrigir, ou resgatar supostas injustiças.
Assumir-se como é, como se nasceu, como Deus nos fez. Ninguém é infeliz de nascença. Torna-se, quando fica estagnado, chorando, coitadinho, exigindo cotas para uma impossível igualdade.
E para encerrar, não há no Brasil raça pura. Somos todos produtos de uma feliz miscigenação de três grupos: brancos, negros,índios. E graças a Deus o resultado foi muito bom. As belas figuras que discutiam sua ¨pseudo condição¨o demonstravam naquele momento.
Rio,setembro de 2006
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NOSSO BENJAMIN
É muito vivo e esperto nos seus quatro anos. Andou, como os demais, antes dos dez meses, porque teve como arena de exercícios uma sala bem grande , limitada por uma grade que não o deixava entrar na cozinha, lugar muito perigoso, povoado de monstros malvados que afogam, queimam, furam, causam danos terríveis, ameaçam a integridade, podem até destruir uma pessoinha tão pequena. Desde os sete meses de idade ele se pendurava, com dificuldade, na indigesta grade que o separava de coisas tão instigantes à sua curiosidade natural, e ficava namorando a mamãe que praticava um ritual estranho naquele laboratório, produzindo coisas mornas, agradáveis de ingerir, (que importava que aquilo se chamasse sopa ou mingau?)- e beberagens fresquinhas, docinhas, num copo todo enfeitado com o Mickey e a Minnie.
Às vezes ele chora, esfregando os olhinhos, e então é suspenso a um colo muito macio, ganha beijos, e logo jogado numa banheira com água tépida, na medida da gostosura, mas ele chora, impaciente, porque apesar de adorar a água, está a fim de se atracar com a mamadeira, e aquela mulherzinha melosa acha que ele tem que estar limpo e de roupa mudada, antes de ter a a satisfação básica satisfeita, soubesse falar e contrataria um advogado para pugnar por ele, Os direitos humanos são inalienáveis!
Este sujeitinho vai dar no mínimo, um Veterinário, garanto para o seu pai. Porque um tal amor pelos bichos é de comover. Não tem medo do Dick, o nosso policial, que late grosso, dos gatos, quando puder, ele vai fazer “gato e sapato” deles: puxa-lhes o rabo, puxa-lhes as orelhas. José, que é um ser blasé, pouco liga para tais atentados, sai de lado, procura um lugar inacessível aos “ataques”, mas o Bonifácio vira-se para ele, bufa, como zangado, ( mais tarde, esquecido da ofensa, vai se aninhar perto dele, e muitas vezes dorme ao seu lado, próximo ao colchonete do cercadinho). Vigio para que não o arranhem, porque ele apenas deseja brincar com eles, como brinca com o Lulu, só que este ursinho é manso e pacífico- se bem que deve ter uma orelha gostosa, boa de mastigar. Defendo-o, ensinando-lhe que o Lulu não é chupeta, ele tem uma, à qual não dá muita importância. Ama também os passarinhos, o canto dos canarinhos o enleva. E deve ter reparado que o Barbudinho (é um coleiro? nunca sei!) adora a música clássica, e canta, canta junto com a Maria Callas que deseja ser “Sempre libera”- e ele dobra o canto nas coloraturas, o pássaro e não o benjaminzinho, (a bem da verdade, o passarinho não diferencia o barulho da máquina de lavar, da torneira aberta, do apito da panela de pressão, da voz de qualquer cantor lírico).O rapazinho, diferentemente da avezinha, gosta de dormir com música e apesar de não entender, escuta uma poesia, ou uma cançãozinha de Brahms- Gutte nacht, meine Kinder, essa cantada para todos os três, à noite, “ comme il fault”.
Outra profissão que ele terá, na certa, o pai não erra- é a de mecânico, pois carro é a primeira palavra que ele aprendeu a dizer- a seu modo, certamente. E fica doidinho quando o irmãozinho passa por ele dirigindo o seu “fordinho” vermelho; vai atrás, engatinhando, fazendo-me cuidado; que não se machuque..
Enquanto puder, meu filho, eu te defenderei de todos os perigos. Mas quero te preparar para a vida, porque nem sempre eu poderei colocar uma grade entre as armadilhas da vida e o meu pequeno benjamin.
(Rio de Janeiro,1960)
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Só Agora
Cara Rejane
Perdoe-me pela infinita demora!
Escrevo, enfim, para comentar rapidamente seu “O outro lado das coisas”, que li nesse verão.
O Ivan Proença está certo quando fala da alta carga de indefinição de sua escrita.
Você aposta, sim, no difuso.
Acredito que quanto mais você se libertar da realidade bruta e se embrenhar no difuso, escreverá melhor.
É o que consigo dizer.
Obrigado pela confiança e amizade.
Um abraço do
Castello
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O mel e a cicuta
Alberto Madeira
Romance histórico
Editora Ágora, da Ilha. Rio de Janeiro, l999
O escritor Alberto Madeira nos envia o seu mais recente livro, produto editorial do corajoso Paulo França. Um bom augúrio para o ano que começou há pouco, uma editora pequena, um livro de qualidade. Em cerca de 110 páginas, o autor nos situa, de imediato, no século IV a.C. do apogeu da Filosofia, da arte e da cultura, em contato com deuses e sábios, no cenário encantador do perdido mundo helênico.
Romance histórico? Vejamos, O gênero caracteriza um produto do romantismo literário, que descreve a “saga de um herói insatisfeito, problemático.”(e temos aqui um conjunto de várias sagas, de muitos e variados heróis) todos, parafraseando Lucáks, “em busca de valores autênticos num mundo degradado”.[1]
O estilo da narrativa também nos deixaria em dúvida, quanto à classificação. Teríamos, antes, o relato das lembranças de um homem, matéria acumulada no mais fundo de si próprio, portanto, a trajetória humana e divina dos seres da sua contemporaneidade, digamos, suas recordações, respeitáveis e dignas: o memorial de Aristipo de Cirene, – de quem a História não guardou um retrato muito definido. Em certo sentido é um livro didático, porque exibe a história da filosofia como painel; e por outro lado pelo seu próprio tema: as três viagens que Platão fez à Sicília e a Siracusa, por volta de 394.aC. Mencionar Platão- subentendido, Sócrates, é falar em educação, é falar em ética, que pela primeira vez é associada à arte de governar. Didático, repetimos, porque através do método histórico, destila teses e fatos comprováveis, respaldados por grandes e sérios historiadores. Mas é também uma ficção, um romance, na medida em que recria existencialmente um mundo onde imperam as paixões, tão refletidas e dissecadas pela dialética do platonismo. E nessa direção não está nunca ausente a curiosidade do leitor, num encadear-se de situações muito bem dosadas, em que compartilhamos dos sentimentos dos personagens, dos acontecimentos, expondo-nos à catarse, elemento que caracteriza bem este gênero literário, na medida em que nos transfere expectativas. Lembrar que em nosso contexto cultural nem todos os leitores são iniciados, e o livro pode, perfeitamente, semelhar um relato de aventuras exemplares.
Alberto Madeira é um escritor vigoroso, respaldado por um sólido conhecimento dos textos clássicos, trafegando à vontade pelo período áureo da helenidade. Disto decorre o fator de curiosidade do livro, que tem a sua temporalidade no período mais instigante da antigüidade clássica – o século de Péricles. Deixa entrever seu talento de romancista, prática que trouxe do exercício de autor bem sucedido de novelas, tendo ganho, inclusive, vários prêmios literários, numa época em que a radiofonia concentrava toda a possibilidade de entretenimento popular, no ramo da comunicação auditiva. Num tempo em que se exigia qualidade nos textos seriados, que faziam muito maior apelo à imaginação dos ouvintes, pela falta do elemento visual , recurso televisivo abundante, nos dias.de hoje.
Mas o mel e a cicuta é bem mais que um romance histórico, um memorial, uma peça didática ou uma reflexão filosófica. É tudo isso, e mais – de que valem classificações? Os pensadores nos deixaram a lição da relatividade de todas as coisas e nos advertiram que a análise ideal da realidade depende do lado da caverna onde a pessoa se coloque.
Assumindo o eu narrativo de Aristipo de Cirene, filósofo menor, um dos precursores do epicurismo, discípulo de Platão, e a quem classifica “espécie de Voltaire da antigüidade,” o autor desfila acontecimentos importantes que se deram no Peloponeso. Não só as viagens de Platão, mas as sagas de Dion, de Lisias, num contexto em que aparecem as figuras de Alcebíades, Trasíbulo, Timon, os dois Dionísios. Faz desdobrar um amplo painel da época, das leis e das guerras, da vida e cultura atenienses, sempre exalçando os fatos reais e a trajetória das idéias.
Refaz o contexto de Atenas e as instituições do tempo, os hábitos e costumes desse período histórico. Refere o episódio ímpar da morte de Sócrates, forçado a beber cicuta, exemplo materializado da sua ética particular, registrando o desprendimento diante da execução, consolando e encorajando os amigos que se lamentavam, interiormente convicto de que “o principal não é viver, mas viver bem”, isto é, “de acordo com a justiça”, apesar de saber-se vítima da injustiça que contra ele cometiam. Presencia a morte ignominiosa, daquele que privilegiou a elegância até os momentos finais, obedecendo às ordens do carcereiro. O “mais sábio dos homens” teria que despertar inveja e despeito no coração dos poderosos, para quem a moralidade nas ações era coisa indigna de cogitação. Fora ele o primeiro filósofo a pensar o papel da ética na política.
A estrutura do livro, em tom confessional, composto a partir dos textos clássicos, das próprias cartas de Platão aos discípulos, revivendo as lições de Sócrates, a criação das Academias, as razões do método, etc,- se faz, assim, muito original. Como ficção, satisfaz. Dos muitos episódios, qual seria o mais saboroso ? Timon, o misógino, que se dizia seguidor de Heráclito, ao perder seus últimos bens, entregando sua luxuosa casa aos agiotas, deverá cortar uma vetusta figueira, cujas raízes estariam prejudicando as fundações. Sobe nela e faz um discurso aos que desejassem enforcar-se, para que a aproveitassem antes de tombá-la. Estes, e demais fatos da sua escandalosa vida seriam pequenos exemplos desse texto primoroso. Sua leitura é uma delícia, resgatando-nos o prazer de ler, fugindo ao ramerrão costumeiro da literatura atual, que pretendendo investigar razões freqüentes nos dramas contemporâneos se perde na impossibilidade de descobrir as motivações de toda a miséria humana em seus diversos níveis.
O mel e a cicuta, na sua simplicidade linear, sem complicações ou sofisticações, nos deixa, entretanto, com a certeza que, apesar dos esforços dos pensadores, a procurar libertar a alma humana das paixões más, a humanidade, infelizmente, continua a mesma, a cultivar mesquinhezas, e ainda não aprendeu a pautar a vida pelo Bem, que é a suprema finalidade da existência. Como diria Platão.
Rejane Machado.
Rio de Janeiro,março de 1999
[1]Cf..LUCÁKS,G. La théorie du roman. Paris, Édition Gonthier,l963. -
QUEM DE MIM SEREI EU? (Dias da Costa- Canção do Beco) Minibiografia
Minibiografia: Quem de mim serei eu? ( Dias da Costa- Canção do beco)
Carioca,professora, três filhos ma-ra-vi-lho-sos: Eliza, Márcio Henrique, Maurício. De bem com a vida. Amores maiores: Pedrinho,Helena,Rodrigo,Cecília, Clarice e Bernardo, netos muito fofos
Coisa melhor da vida: paz e harmonia; vida em família; amigos bons.
Luan ( da Helena) e Maria Renata ( do Rodrigo).
Melhores amigos: melhor não nomeá-los, para evitar lapsos/injustiças. Indispensável na vida: música! Hábitos: ler um livro por semana. Compositores mais queridos: todos os barrocos( principalmente os Bach, Händel, Pachebel,Vivaldi, Palestrina) os clásssicos( Mozart, Haydn, Salieri) os românticos, (Beethoven!,Schubert, Schumann, Wagner)0s da ópera: Verdi, Puccini, Donizetti, Bellini, Carlos Gomes, Chopin) os poemistas-sinfônicos:Dvoräck, Smetana, Liszt,Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Villa-Lobos, Rimski-Korsácov, Stravinski) impressionistas( Debussy, Ravel, Respighi) poucos modernistas:quase nenhum dos contemporâneos. Sempre o clássico. De popular, muito pouco, de folclore idem, regional zero. Literatura: (prosa) Machado de Assis, Graciliano, Aluísio e Arthur de Azevedo, Martins Pena, Eça de Queirós, Alexandre Herculano,Miguel Torga,Thomas Mann, Proust… .(poesia): Ovídio, Rilke, Gonçalves Dias, Bilac, Victor Hugo, Francisco Miguel, os Barret Browning, Ronsard,Yeats,Walt Withman,Drummond, Antero, Raimundo Corrêa, Vicente de Carvalho, Cecília,Stella, Florbela,… quase nenhum modernista, contemporâneos, idem… pintura: os iluministas, os barrocos,os impressionistas- nenhum modernista, nenhum primitivo;gosto dos realistas, dos penumbristas. Hábitos: ler um livro por semana Lugares do mundo: Rio de Janeiro, Deutschland ( meine zweiste Heimat!), Londres, Roma,Viena, Salzburg,o sul da França:a Provence, Madrid, Toledo, Barcelona,Kopenhagen, Zurich, sul de Minas, Teresópolis, Petrópolis, Itaipava, Santa Catarina; Paisagens preferidas: morros, montanhas, lagos,pedras,florestas; árvores,sempre árvores, de preferência floridas. Preferências: dias de chuva/ frio(de prefência ouvindo Chopin) Hábitos de vida: comer pouco/ dormir pouco/levantar cedo/ fumo,jamais!/detestar toda e qualquer bebida alcoólica( já bebi bastante numa outra encarnação!)/ caminhar à noite no calçadão/odiar discussões/ouvir música sempre/ não acompanhar novelas/ raramente ver televisão/ler muito/ zelar pelo ambiente/ e pelo meio ambiente/religiosidade/ calma/ controle/cultivar os amigos/ não fazer vida noturna/ paciência/persistência/ ser muito grata/ter muito respeito pelo próximo/frequentar concertos/ assistir óperas/cinema/teatro/exposições/ escrever sempre/ beber nuita água/ caminhar,caminhar/ escrever longas cartas/ telefonar pouco/ ter muita paciência/ costurar/fazer trabalhos manuais/ cozinhar(especialidades: peixes, empadões,saladas.doces , muitos doces) Planos para o futuro: viver e deixar viver/ voltar a Roma/ ver de novo a Alemanha/ os Jerônimos/ tomar um chocolate quente em Paris, no inverno/escrever muito/ cultivar os amores/ ouvir todas as óperas de Wagner/desapego de tudo o que é material/ ajudar sempre.
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