• O mel e a cicuta

    Date: 2010.02.03 | Category: Críticas | Tags:

    Alberto Madeira

    Romance histórico

    Editora Ágora, da Ilha. Rio de Janeiro, l999 

     

     O escritor Alberto Madeira nos envia o seu mais recente livro, produto editorial do corajoso Paulo França. Um bom augúrio para o ano que começou há pouco, uma editora pequena, um livro de qualidade. Em cerca de 110 páginas, o autor nos situa, de imediato, no século IV a.C. do apogeu da Filosofia, da arte e da cultura, em contato com deuses e sábios, no cenário encantador do perdido mundo helênico.

    Romance histórico? Vejamos, O gênero caracteriza um produto do romantismo literário, que descreve a “saga de um herói insatisfeito, problemático.”(e temos aqui um conjunto de várias sagas, de muitos e variados heróis) todos, parafraseando Lucáks, “em busca de valores autênticos num mundo degradado”.[1]

    O estilo da narrativa também nos deixaria em dúvida, quanto à classificação. Teríamos, antes, o relato das lembranças de um homem, matéria acumulada no mais fundo de si próprio, portanto, a trajetória humana e divina dos seres da sua contemporaneidade, digamos, suas recordações, respeitáveis e dignas: o memorial de Aristipo de Cirene, – de quem a História não guardou um retrato muito definido. Em certo sentido é um livro didático, porque exibe a história da filosofia como painel; e por outro lado pelo seu próprio tema: as três viagens que Platão fez à Sicília e a Siracusa, por volta de 394.aC. Mencionar Platão- subentendido, Sócrates, é falar em educação, é falar em ética, que pela primeira vez é associada à arte de governar. Didático, repetimos, porque através do método histórico, destila teses e fatos comprováveis, respaldados por grandes e sérios historiadores. Mas é também uma ficção, um romance, na medida em que recria existencialmente um mundo onde imperam as paixões, tão refletidas e dissecadas pela dialética do platonismo. E nessa direção não está nunca ausente a curiosidade do leitor, num encadear-se de situações muito bem dosadas, em que compartilhamos dos sentimentos dos personagens, dos acontecimentos, expondo-nos à catarse, elemento que caracteriza bem este gênero literário, na medida em que nos transfere expectativas. Lembrar que em nosso contexto cultural nem todos os leitores são iniciados, e o livro pode, perfeitamente, semelhar um relato de aventuras exemplares.

    Alberto Madeira é um escritor vigoroso, respaldado por um sólido conhecimento dos textos clássicos, trafegando à vontade pelo período áureo da helenidade. Disto decorre o fator de curiosidade do livro, que tem a sua temporalidade no período mais instigante da antigüidade clássica – o século de Péricles. Deixa entrever seu talento de romancista, prática que trouxe do exercício de autor bem sucedido de novelas, tendo ganho, inclusive, vários prêmios literários, numa época em que a radiofonia concentrava toda a possibilidade de entretenimento popular, no ramo da comunicação auditiva. Num tempo em que se exigia qualidade nos textos seriados, que faziam muito maior apelo à imaginação dos ouvintes, pela falta do elemento visual , recurso televisivo abundante, nos dias.de hoje.

    Mas o mel e a cicuta é bem mais que um romance histórico, um memorial, uma peça didática ou uma reflexão filosófica. É tudo isso, e mais – de que valem classificações? Os pensadores nos deixaram a lição da relatividade de todas as coisas e nos advertiram que a análise ideal da realidade depende do lado da caverna onde a pessoa se coloque.

     Assumindo o eu narrativo de Aristipo de Cirene, filósofo menor, um dos  precursores do epicurismo, discípulo de Platão, e a quem classifica “espécie de Voltaire da antigüidade,” o autor desfila acontecimentos importantes que se deram no Peloponeso. Não só as viagens de Platão, mas as sagas de Dion, de Lisias, num contexto em que aparecem as figuras de Alcebíades, Trasíbulo, Timon, os dois Dionísios. Faz desdobrar um amplo painel da época, das leis e das guerras, da vida e cultura atenienses, sempre exalçando os fatos reais e a trajetória das idéias.

    Refaz o contexto de Atenas e as instituições do tempo, os hábitos e costumes desse período histórico. Refere o episódio ímpar da morte de Sócrates, forçado a beber cicuta, exemplo materializado da sua ética particular, registrando o desprendimento diante da execução, consolando e encorajando os amigos que se lamentavam, interiormente convicto de que “o principal não é viver, mas viver bem”, isto é, “de acordo com a justiça”, apesar de saber-se vítima da injustiça que contra ele cometiam. Presencia a morte ignominiosa, daquele  que privilegiou a elegância até os momentos finais, obedecendo às ordens do carcereiro. O “mais sábio dos homens” teria que despertar inveja e despeito no coração dos poderosos, para quem a moralidade nas ações era coisa indigna de cogitação. Fora ele o primeiro filósofo a pensar o papel da ética na política.

    A estrutura do livro, em tom confessional, composto a partir dos textos clássicos, das próprias cartas de Platão aos discípulos, revivendo as lições de Sócrates, a criação das Academias, as razões do método, etc,- se faz, assim, muito original. Como ficção, satisfaz. Dos muitos episódios, qual seria o mais saboroso ? Timon, o misógino, que se dizia seguidor de Heráclito, ao perder seus últimos bens, entregando sua luxuosa casa aos agiotas, deverá cortar uma vetusta figueira, cujas raízes estariam prejudicando as fundações. Sobe nela e faz um discurso aos que desejassem enforcar-se, para que a aproveitassem antes de tombá-la. Estes, e demais fatos da sua escandalosa vida seriam pequenos exemplos desse texto primoroso. Sua leitura é uma delícia, resgatando-nos o prazer de ler, fugindo ao ramerrão costumeiro da literatura atual, que pretendendo investigar razões freqüentes nos dramas contemporâneos se perde na impossibilidade de descobrir as motivações de toda a miséria humana em seus diversos níveis.

    O mel e a cicuta, na sua simplicidade linear, sem complicações ou sofisticações, nos deixa, entretanto, com a certeza que, apesar dos esforços dos pensadores, a procurar libertar a alma humana das paixões más, a humanidade, infelizmente, continua a mesma, a cultivar mesquinhezas, e ainda não aprendeu a pautar a vida pelo Bem, que é a suprema finalidade da existência. Como diria Platão.

    Rejane Machado.

    Rio de Janeiro,março de 1999


    [1]Cf..LUCÁKS,G. La théorie du roman. Paris, Édition Gonthier,l963.