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NOSSO BENJAMIN
É muito vivo e esperto nos seus quatro anos. Andou, como os demais, antes dos dez meses, porque teve como arena de exercícios uma sala bem grande , limitada por uma grade que não o deixava entrar na cozinha, lugar muito perigoso, povoado de monstros malvados que afogam, queimam, furam, causam danos terríveis, ameaçam a integridade, podem até destruir uma pessoinha tão pequena. Desde os sete meses de idade ele se pendurava, com dificuldade, na indigesta grade que o separava de coisas tão instigantes à sua curiosidade natural, e ficava namorando a mamãe que praticava um ritual estranho naquele laboratório, produzindo coisas mornas, agradáveis de ingerir, (que importava que aquilo se chamasse sopa ou mingau?)- e beberagens fresquinhas, docinhas, num copo todo enfeitado com o Mickey e a Minnie.
Às vezes ele chora, esfregando os olhinhos, e então é suspenso a um colo muito macio, ganha beijos, e logo jogado numa banheira com água tépida, na medida da gostosura, mas ele chora, impaciente, porque apesar de adorar a água, está a fim de se atracar com a mamadeira, e aquela mulherzinha melosa acha que ele tem que estar limpo e de roupa mudada, antes de ter a a satisfação básica satisfeita, soubesse falar e contrataria um advogado para pugnar por ele, Os direitos humanos são inalienáveis!
Este sujeitinho vai dar no mínimo, um Veterinário, garanto para o seu pai. Porque um tal amor pelos bichos é de comover. Não tem medo do Dick, o nosso policial, que late grosso, dos gatos, quando puder, ele vai fazer “gato e sapato” deles: puxa-lhes o rabo, puxa-lhes as orelhas. José, que é um ser blasé, pouco liga para tais atentados, sai de lado, procura um lugar inacessível aos “ataques”, mas o Bonifácio vira-se para ele, bufa, como zangado, ( mais tarde, esquecido da ofensa, vai se aninhar perto dele, e muitas vezes dorme ao seu lado, próximo ao colchonete do cercadinho). Vigio para que não o arranhem, porque ele apenas deseja brincar com eles, como brinca com o Lulu, só que este ursinho é manso e pacífico- se bem que deve ter uma orelha gostosa, boa de mastigar. Defendo-o, ensinando-lhe que o Lulu não é chupeta, ele tem uma, à qual não dá muita importância. Ama também os passarinhos, o canto dos canarinhos o enleva. E deve ter reparado que o Barbudinho (é um coleiro? nunca sei!) adora a música clássica, e canta, canta junto com a Maria Callas que deseja ser “Sempre libera”- e ele dobra o canto nas coloraturas, o pássaro e não o benjaminzinho, (a bem da verdade, o passarinho não diferencia o barulho da máquina de lavar, da torneira aberta, do apito da panela de pressão, da voz de qualquer cantor lírico).O rapazinho, diferentemente da avezinha, gosta de dormir com música e apesar de não entender, escuta uma poesia, ou uma cançãozinha de Brahms- Gutte nacht, meine Kinder, essa cantada para todos os três, à noite, “ comme il fault”.
Outra profissão que ele terá, na certa, o pai não erra- é a de mecânico, pois carro é a primeira palavra que ele aprendeu a dizer- a seu modo, certamente. E fica doidinho quando o irmãozinho passa por ele dirigindo o seu “fordinho” vermelho; vai atrás, engatinhando, fazendo-me cuidado; que não se machuque..
Enquanto puder, meu filho, eu te defenderei de todos os perigos. Mas quero te preparar para a vida, porque nem sempre eu poderei colocar uma grade entre as armadilhas da vida e o meu pequeno benjamin.
(Rio de Janeiro,1960)