Archive for março 14th, 2010
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O Livro ( Pedro Franco)
Prezada Rejane Machado:
Quando lhe envio um escrito, recebo de volta um prato com iguarias, com análise técnica acurada e por quem conhece literatura. Após ler o “O outro lado das coisas”, vou devolver um prato, contendo mariolas, que nem serão o batido gostei, não gostei, pois só gostei. E O Outro Lado começa muito bem e é necessário começar bem. E um olhar faz o livro começar em alto astral emocional. No meu livro de contos, 17 contos premiados, muitos amigos reclamaram por ter começado por Sansara e ter deixado o Dr. Negrão e o sabiá para último. Ainda que Monstro de olhos verdes seja um bom conto, Um olhar é um início enfático, que prende o leitor. Devo assinalar que achei o livro com contos coerentes, isto é, não transcorre entre picos e vales, sístoles e diástoles e também não fica no “plateaux” intermediário, pois tem um nível alto em todos os 16 contos. Sei como é difícil manter um padrão de excelência. Mas, mesmo destacando a qualidade geral, há contos que tocam mais e para mim foram: Sortilégio, uma história de vida simples, traída, revidada, com tragédia de permeio, mas que se finda na esperança, esperança simples, com viola, mas nem pela simplicidade o hino à esperança torna-se menor. E a filha de Dona Conceição, que jogava coisas no chão, para serem apanhadas, encontra guarida. Cotas e não é que alguém que é contra as cotas e até escreveu crônica sobre as mesmas, gostou do conto, visto do outro lado? Que o Governo pare de fazer demagogia e de fato ampare os Negões e os Alemães da vida. Ótimo conto. O Segundo dia: história triste, muito bem contada, por filho de mulher de malandro (aceita apanhar), para desespero deste filho pequeno. Uma tragédia, que acaba em tragédia. Conto que se mostra bem escrito e sem derramamentos. Destino: gostei muito, pois já tive uma cliente assim. _ Não aguento mais Fulano, quero ver a novela e ele me obriga a ver o jogo. Não agüento mais! Volta um mês depois e Fulano, que tinha de fato um gênio difícil, morreu. _ Era um ótimo marido, nem conseguia ver os jogos, se eu não estivesse ao seu lado. E tome choro sentido. Estava de fato desesperada. O amor é complicado! Termino, agradecendo o livro, lido no descanso de Itaipava, quando fugimos dos calores do Rio, neste fevereiro/março e dos achaques da idade, voltando agora para a luta diária, que de toda a maneira é bem vinda. Se não houvesse rotina, não haveria férias. O Outro lado foi ótimo companheiro, um livro que leva a reflexões, até para quem entende mais de uso interno, que de literatura.
Pedro Franco.
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Preconceito
Todo preconceito é odioso. Na etimologia da palavra já se percebe o absurdo de uma atitude anterior, feita sem base, no vazio, conclusão acabada antes de começar uma análise, e que vai dirigir a decisão final para um caminho que poderá não ser o mais certo ou o melhor.
O preconceito parte da má vontade e segue pela via da premissa apressada, mal ou não analisada em seus fundamentos, levando a uma falsa conclusão. De mim para o outro o preconceito é inaceitável. Intui que eu seja melhor do que o meu próximo. E melhor em quê, afinal, se tudo é relativo?
No dia 19 de novembro, domingo, no canal Brasil, cerca de 5 horas da tarde, a propósito do dia do Zumbi- consciência negra- assisti a um programa que pretendia debater o tema negritude. Três belas mulheres, inteligentíssimas, cultas e elegantes, um delas artista de novelas de TV, outra, doutora em, parece-me, sociologia ou similar, e a terceira desempenhando um alto cargo no governo- expunham bravamente em público seus pontos de vista, apontavam injustiças da sociedade, tentavam soluções, etc. com respeito ao problema.
Desfilaram supostas injustiças por conta da sua condição. Entre outros absurdos alegava-se que o negro não desempenha no contexto brasileiro um papel justo. E não só na vida real. Em novelas, diziam, se o tema é, por exemplo, escravidão, os negros são apresentados como figurantes ou como escravos, simplesmente, não lhes dando, os autores, oportunidades para encarnarem personagens com sentimentos ( foi isto que eu entendi: não desempenham papéis principais, sempre como empregados domésticos); atribuem- lhes sempre as piores tendências; anúncios comerciais mão contemplam as características do público negro; ganham menos em comparação com os brancos; são sempre discriminados nos locais públicos, e suprema provação:são-lhes negadas as oportunidades para acesso á educação superior.
Reconheçamos a injustiça histórica com respeito aos negros. A abolição decretada a 13 de maio não foi, realmente, uma libertação; provavelmente, para muitas pessoas, ali começava o verdadeiro calvário, porque vivendo em dependência extrema foram jogadas à vida , sem preparo ou recursos para sobreviver por sua própria conta.. Aquela grande mão-de-obra não foi absorvida como seria de desejar, muitos ficaram errando pelas estradas, morrendo à míngua, outros se suicidaram, por não encontrar recursos para continuar. E os quilombos se multiplicaram, trazendo problemas de todos os matizes: sociais, de moradia, de segurança, etc.
Muitas das queixas desfiladas não procedem. Não se está levando em conta que metade dos males atingem também, à população não-negra, que também sofre com desemprego, com moradias indignas, com discriminação social, sem acesso à educação, aos bens maiores de consumo,etc., como um todo da população brasileira. Mas é preciso ser cego para concordar com todas as reclamações.
No quesito TV penso que há exagero nas queixas. A televisão acolhe generosamente a todos os que têm talento. Será exaustivo mencionar a grande quantidade de comunicadores negros, apresentando jornais, fazendo reportagens, e outras funções; nas novelas; mesmo não sendo habitué do gênero, poderia citar vários trabalhos em que artistas negros fizeram com sucesso, papéis principais: Chica da Silva, Da cor do pecado, Cobras e lagartos, como exemplo, desempenhando com muito sucesso e competência, papéis relevantes, principais, mesmo, nas tramas. Cidade dos homens mostrou o cotidiano de jovens favelados, enfatizando nobres caracteres, dentre a crueldade do tema decorrente do contexto de gente pobre e infeliz- não importa se negros se brancos, excelentes atores que fazem papéis inesquecíveis, nem sempre encarnando domésticos.E os brancos que vivem eternamente personagens empregados domésticos, feirantes e quebradores de galho,- tal como na vida real?
Já é tempo de os negros deixarem, eles sim, de ser tão preconceituosos! Têm que aceitar suas dificuldades de vida como contingência da sorte. Ninguém pediu para nascer branco ou preto, e se nasceu , o que tem a fazer é conformar-se, tanto como quem nasceu deficiente físico ou mental. Não é culpa da sociedade. Ele que vá à luta para reverter situações de pobreza, de auto-estima, de mais-valia. Ouso dizer que nosso preconceito é social, e não racial. Primeiro, porque a raça é uma só: é a raça humana; segundo, porque seria exaustivo nomear todos os negros e mestiços que vencem e venceram na vida, que se destacaram e destacam nos esportes, na cultura, nas artes do Brasil. Se sofremos o carma da escravidão é natural que nossa população demonstre essa influência, esse componente da nossa formação étnica, que aliás, deu um maravilhoso resultado no que tange á aparência . Mas é preciso reconhecer que o negro que tem valor , que luta e vence, é respeitado. O problema é deixar os complexos de lado e se assumir tal como Deus nos fez.
Preconceito existe em todas as áreas: a mulher que dirige é sempre culpada pelos acidentes de trânsito, não importa que sua carteira não apresente nenhuma infração às leis; o velho que se desloca nas ruas é xingado porque anda devagar e atrapalha os jovens que têm pressa; os muito gordos são ridicularizados, os muito magros, igualmente; os escolares são maltratados pelos motoristas e trocadores de ônibus, não importa lá que cor tenham; brancos mal vestidos são convidados a usar o elevador de serviço, tal como negros mal vestidos. Há preconceito contra o nordestino, o pobre paraíba¨ que nos constrói as casas, que nos cuida os condomínios; há preconceito contra os gringos, contra os lusos, os baixinhos, os gordos, os magros…
Uma das doutoras queixava-se de nunca ter visto na televisão anúncio para seu cabelo. E ela mesma usou a palavra¨pixaim¨. Pois eu vejo a todo momento anúncios para xampus para cabelos secos /ondulados/ lisos/crespos. Por quê ela não se enquadra nessas classificações? O que é cabelo pixaim? Só conheço aquelas definições acima. Imagine se se ouvisse na tevê um demonstrador fazendo reclame de xampu para cabelos ruins, sabonete próprio para peles negras? A grita seria geral.
Muito positivos são esses programas, em que pese o absurdo daquelas colocações. Reivindicando, injustamente, um maior reconhecimento dos poderes públicos e da sociedade em geral, só por causa de um grande equívoco, afinal ninguém tem culpa por ser negro. Ninguém escolhe a cor com que pretende nascer, a sua ou a de seus descendentes.
Biológica e fisiologicamente não há diferenças entre os seres humanos.Todos temos os mesmos característicos, com pequenas diferenças individuais. Se se descascar a pele escura de um negro ou mestiço e a de um branco, colocando-os lado a lado ninguém poderá dizer: este é o corpo de um branco, este é o de um negro! Não há ninguém no mundo, que, através do exame de sangue de um negro e/ou de um branco possa diagnosticar a quem pertence este, a quem pertence aquele. A fisiologia de ambos e as necessidades básicas como pessoas humanas são as mesmas; então, onde estão as diferenças? Vamos parar com isto? Vamos parar de enxergar chifres em cabeças de cavalos e encarar as coisas como são. Temos no Brasil, em todo os setores de atividades brancos bons e maus cidadãos, como também temos negros bons e maus cidadãos. Temos juízes, ministros, artistas negros . Têmo-los talentosos, e não-talentosos, não importa se de um grupo ou de outro- escritores, pensadores, professores, artistas plásticos, músicos- nosso povo é realmente especial.
Por último justificou-se as famigeradas cotas para a universidade que supostamente beneficia a população negra. Não se leva em conta grande maioria de população de não-negros carentes, pobres, moradores em favelas.
A cota reforça o preconceito, porque pressupõe incapacidade para enfrentar o vestibular, os negros são incapazes, coitadinhos, não podem competir com os brancos, são inferiores e precisam ser favorecidos com essa vantagem. Não se leva em conta que não há injustiça, o que há é um funil, motivado pela pequena oferta em oposição á grande procura pela universidade. No cartão de respostas do vestibular não há sequer fotografia, e só se pede marcar as respostas, não se podendo saber se é de um aluno branco ou não branco. O remédio é investir nos cursos fundamental e médio de boa qualidade, com muita fiscalização pelo Ministério da Educação, com oportunidades iguais para todos. Nada de cotas humilhantes para corrigir, ou resgatar supostas injustiças.
Assumir-se como é, como se nasceu, como Deus nos fez. Ninguém é infeliz de nascença. Torna-se, quando fica estagnado, chorando, coitadinho, exigindo cotas para uma impossível igualdade.
E para encerrar, não há no Brasil raça pura. Somos todos produtos de uma feliz miscigenação de três grupos: brancos, negros,índios. E graças a Deus o resultado foi muito bom. As belas figuras que discutiam sua ¨pseudo condição¨o demonstravam naquele momento.
Rio,setembro de 2006
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