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O Livro ( Pedro Franco)
Prezada Rejane Machado:
Quando lhe envio um escrito, recebo de volta um prato com iguarias, com análise técnica acurada e por quem conhece literatura. Após ler o “O outro lado das coisas”, vou devolver um prato, contendo mariolas, que nem serão o batido gostei, não gostei, pois só gostei. E O Outro Lado começa muito bem e é necessário começar bem. E um olhar faz o livro começar em alto astral emocional. No meu livro de contos, 17 contos premiados, muitos amigos reclamaram por ter começado por Sansara e ter deixado o Dr. Negrão e o sabiá para último. Ainda que Monstro de olhos verdes seja um bom conto, Um olhar é um início enfático, que prende o leitor. Devo assinalar que achei o livro com contos coerentes, isto é, não transcorre entre picos e vales, sístoles e diástoles e também não fica no “plateaux” intermediário, pois tem um nível alto em todos os 16 contos. Sei como é difícil manter um padrão de excelência. Mas, mesmo destacando a qualidade geral, há contos que tocam mais e para mim foram: Sortilégio, uma história de vida simples, traída, revidada, com tragédia de permeio, mas que se finda na esperança, esperança simples, com viola, mas nem pela simplicidade o hino à esperança torna-se menor. E a filha de Dona Conceição, que jogava coisas no chão, para serem apanhadas, encontra guarida. Cotas e não é que alguém que é contra as cotas e até escreveu crônica sobre as mesmas, gostou do conto, visto do outro lado? Que o Governo pare de fazer demagogia e de fato ampare os Negões e os Alemães da vida. Ótimo conto. O Segundo dia: história triste, muito bem contada, por filho de mulher de malandro (aceita apanhar), para desespero deste filho pequeno. Uma tragédia, que acaba em tragédia. Conto que se mostra bem escrito e sem derramamentos. Destino: gostei muito, pois já tive uma cliente assim. _ Não aguento mais Fulano, quero ver a novela e ele me obriga a ver o jogo. Não agüento mais! Volta um mês depois e Fulano, que tinha de fato um gênio difícil, morreu. _ Era um ótimo marido, nem conseguia ver os jogos, se eu não estivesse ao seu lado. E tome choro sentido. Estava de fato desesperada. O amor é complicado! Termino, agradecendo o livro, lido no descanso de Itaipava, quando fugimos dos calores do Rio, neste fevereiro/março e dos achaques da idade, voltando agora para a luta diária, que de toda a maneira é bem vinda. Se não houvesse rotina, não haveria férias. O Outro lado foi ótimo companheiro, um livro que leva a reflexões, até para quem entende mais de uso interno, que de literatura.
Pedro Franco.