Archive for dezembro 20th, 2010
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Memórias
Aos dez anos a primeira página. Uma redação escolar, muito valorizada por uma professora primária, uma mulher sensível, cujo nome não guardei. Só a tratava por Atalita, que era o seu prenome. E não me lembro , absolutamente, da sua figura física. Parece-me que tinha a voz doce, os modos calmos- reconstituo alguns dos seus traços de modo indireto, a partir das recordações pessoais de minha mãe, que com ela trocou palavras dedicadas á aluna aplicada, que tinha jeito para escrever. Mas no verso da composição a sua letra bonita e firme deixou-me um recado, que no momento não foi de modo algum levado em conta, mas que funcionaria, mais tarde- porque tudo tem o seu tempo- quando uma indigesta predisposição a um estado depressivo ameaçava um coração machucado.
Naquele momento exato a mensagem de estímulo cumpriu sua destinação. Levantou o moral abalado por uma circunstância, que, afinal, nem devia ter sido assim tão importante, pois que se apagou de modo brusco. No bilhete, ela me recomendava apenas , ter “cuidado com os pronomes”, saudava o trabalho “literário” e vaticinava: “quem sabe, no futuro, não será você uma escritora?” E a minha querida mãe acreditava firmemente nisso. Devo a ela esse estímulo.
Alguns dias depois, enquanto ouvia a Sinfonia Pastoral, comecei a interagir mentalmente com aquele homem sofrido que caminhava pela floresta de Kahlemberg, profundamente integrado com a natureza, imerso em seus pensamentos, questionando os porquês da vida. Tão correto era ele, o coração amargurado pela ingratidão daqueles a quem amava, incompreendido a esconder uma deficiência física impensável a quem trabalhava com sons, Ele mesmo. O solitário mor. Então comecei a escrever: “ Ser solitário era por si norma e destinação…” Este conto , mandei-o para a seção literária do Diário de Notícias, de saudosa memória, excelente jornal fundado por Orlando Dantas. Um suplemento de várias páginas. Crítica, poesia, contos, reportagens literárias, entrevistas com escritores e intelectuais, tudo o diário abrigava. Altíssimo nível. E me pergunto porque não há hoje nada que se lhe compare. Por falta de público? Falta de matéria? Não creio em nenhuma desculpa dessas. Nem mesmo aceito que os tempos “modernos” ( que é isso?) não propicie mais lazer para as pessoas, etc, etc. Falácia maior não há. Para quem foi inoculado com o micróbio da cultura estas desculpas não servem. Tem-se uma grande necessidade de ler. A chamada mídia não resolve essa fome de cultura. A tevê é pobre, os jornais abrigam mais propaganda comercial do que outra coisa, afinal vivem dos anúncios, a política enoja, porque o que lhe poderia dar vida:- a ética, está em franco desuso. Afinal, revistas proliferam, publicações aparecem e desaparecem, vertiginosamente, engolidas por um sistema econômico de grande perversidade, ao qual não podemos fugir. É a maldita situação econômica. E os suplementos dedicados às letras encolhem, desaparecem, aos poucos. É a queda dos valores mais necessários ao sentido da existência.Apesar de proclamarem a morte da literatura ( em todas as suas formas) há um movimento ascendente e contínuo que não se pode deixar de reconhecer. Nem damos contas do montante de eventos , dos quais precisamos nos “defender”, tal a quantidade de convites , todos os dias , para novos lançamentos de livros, palestras, exposições. O que está havendo? Alguém me explica?
Comecei assim, mandando pelos Correios este primeiro conto, que foi publicado no dia de de 1968, pelo qual recebi, também pela mesma via um cheque do qual não me lembro o valor- o que não teve menor importância, senão pelo que representou : colocar-me num grande jornal, ao lado de “cobras”, iniciando um período de colaborações que se estendeu por muitos anos, a outros importantes veículos de comunicação: Leitura,Bancário, A Cigarra, Convívio, Ficção (revistas), Correio da Manhã, Jornal de Letras, Jornal do Brasil, onde sob a batuta do saudoso Lago Burnett, estacionei por longo tempo, fazendo agora somente crítica literária, alavancando autores estreantes, entre eles José Mauro de Vasconcelos( Meu pé de laranja lima), Rubem Fonseca ( A coleira do cão), Caio de Freitas ( Um canal separa o mundo)- e muitos outros que me mandavam seus livros.Data daí a minha amizade com Francisco Miguel de Moura, poeta de Teresina, Armindo Trevisan, de Porto Alegre e Carlos Nejar, também do Rio Grande, Nélida Piñon, Stella Leonardos, Waldemar Lopes, Ricardo Hofmann de Santa Catarina,meu Deus, quanta gente.
Nesse entremeio ganhei uma meia dúzia de prêmios literários. Durante os 4 anos em que estive na Faculdade de Letras, todos os anos tive o nome no Esso Universitário, fazendo o Professor, Doutor Afrânio Coutinho, “ confraternizar-se com o alunado desta Faculdade “ por este motivo. Aí veio o prêmio Orlando Dantas do JB/INL, outro prêmio da Academia Valenciana de Letras, o Fernando Chinaglia, o da Academia de Letras da Bahia, de onde me surgiu uma amizade com Jorge Amado, pois ele me prestou algumas informações para minha tese de Doutorado em Filologia Românica, colega, amigo e compadre que foi de Dias da Costa, o meu biografado de quem fiz uma biobibliografia levantando o prêmio de ensaio, além de me valer grandes amizades e emoções em Salvador, maravilhosa cidade.Outros prêmios vieram
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