Archive for the ‘Críticas’ Category
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Crítica Construtiva
Prezados Srs Organizadores da FLIP:Saudações fraternas.Muito saudáveis estes congressos e festivais literários que colocam em indiscutível evidência nossa pátria. É uma nova vertente, saudável , de Turismo. Seremos conhecidos no mundo, não só pela natureza exuberante, nem pela anatomia das nossas passistas, ou pela batida da nossa bossa nova. Não, Mundo! o Brasil também tem cultura! Se vierem aqui saberão ( saberão?)que temos excelentes escritores como Machado, Graciliano, Aluízio e outros que seria longo mencionar; temos músicos tão grandes como os de fora tais Carlos Gomes, Villa Lobos, Mignone, etc. sem falar em José Maurício, com sua humildade pobrezinha, a Arte está no nosso sangue -temos grandes pintores, escultores, temos a Fio Cruz, temos o Inca, tivemos Oswaldo Cruz, tivemos Manuel de Abreu, nem pensar no Pai da Aviação, temos Niemayer… . Mas infelizmente nossos governos não divulgam senão o que está acima grifado. Então os festivais como o da FLIP dão-nos(dão?) a oportunidade de sermos mais conhecidos no mundo, e assumirmos o nosso lugar no Panteão da cultura universal.Seria ideal se os festivais como a FLIP dessem mais apoio aos artistas nacionais. O elenco privilegia intelectuais que nem sempre são tão importantes na sua própria terra, mas que ficam muito honrados em ganharem todas as mordomias para virem faturar às custas de um povo ingênuo e deslumbrado com o que vem de fora. Será que eles, ao voltar para sua casa, nos dão este retorno? São gratos a quem lhes dá tudo: mordomias, prestígio( que às vezes nem têm tanto assim no seu lugar de origem, mas que agora venderão horrores, serão famosos, reconhecidos -tão importantes, que uma nação de tanta gente inteligente se dá ao luxo de babar aos seus pés?Veja-se o elenco de “artistas” convidados. Um ou dois brasileiros que participam são escolhidos entre os medalhões. Entre aqueles que já têm a seu favor a midia. Que não precisariam de publicidade.É preciso renovação. Há tantos e bons escritores que não têm esta exposição e que teriam muito a dizer, muito a contribuir. Dou um doce a quem me provar que qualquer evento desses lá fora privilegie tanto os escribas brasileiros! Nunca vejo “lá fora” propaganda da nossa cultura. Continuamos a ser vistos como índios selvagens, um país de bárbaros, onde há cobras enormes passeando nos calçadões de Copacabana, e perigosas onças nos nossos parques públicos, além de marginais perigosos e ladrões por todo lado. Quanto á cultura é preciso ir buscar lá fora uma meia-dúzia de bons-vivants, que ficarão ” eternamente” gratos por aumentarmos os seus lucros, que lançarão seus livros aqui, fazendo o pé-de-meia dos editores gulosos.Terão sucesso, e desejo-lhes muito mais. Mas fica o meu protesto.Rejane Machado -
crítica ao conto Pastoral
Mensagem:
Oi Rejane
Li seu conto “Sinfonia Pastoral” ouvindo música clássica no meu
mp3,prá criar um clima estético.
Eu gosto muito dos cortes que você dá aos seus textos, esse
penetrar em outras esferas de pensamento/espaço/tempo, justo o que a
boa música nos proporciona: um universo paralelo onde a gente
cria/recria a realidade que nos interessa. Valeu !!!
Beijos.
Regina. -
O Livro ( Pedro Franco)
Prezada Rejane Machado:
Quando lhe envio um escrito, recebo de volta um prato com iguarias, com análise técnica acurada e por quem conhece literatura. Após ler o “O outro lado das coisas”, vou devolver um prato, contendo mariolas, que nem serão o batido gostei, não gostei, pois só gostei. E O Outro Lado começa muito bem e é necessário começar bem. E um olhar faz o livro começar em alto astral emocional. No meu livro de contos, 17 contos premiados, muitos amigos reclamaram por ter começado por Sansara e ter deixado o Dr. Negrão e o sabiá para último. Ainda que Monstro de olhos verdes seja um bom conto, Um olhar é um início enfático, que prende o leitor. Devo assinalar que achei o livro com contos coerentes, isto é, não transcorre entre picos e vales, sístoles e diástoles e também não fica no “plateaux” intermediário, pois tem um nível alto em todos os 16 contos. Sei como é difícil manter um padrão de excelência. Mas, mesmo destacando a qualidade geral, há contos que tocam mais e para mim foram: Sortilégio, uma história de vida simples, traída, revidada, com tragédia de permeio, mas que se finda na esperança, esperança simples, com viola, mas nem pela simplicidade o hino à esperança torna-se menor. E a filha de Dona Conceição, que jogava coisas no chão, para serem apanhadas, encontra guarida. Cotas e não é que alguém que é contra as cotas e até escreveu crônica sobre as mesmas, gostou do conto, visto do outro lado? Que o Governo pare de fazer demagogia e de fato ampare os Negões e os Alemães da vida. Ótimo conto. O Segundo dia: história triste, muito bem contada, por filho de mulher de malandro (aceita apanhar), para desespero deste filho pequeno. Uma tragédia, que acaba em tragédia. Conto que se mostra bem escrito e sem derramamentos. Destino: gostei muito, pois já tive uma cliente assim. _ Não aguento mais Fulano, quero ver a novela e ele me obriga a ver o jogo. Não agüento mais! Volta um mês depois e Fulano, que tinha de fato um gênio difícil, morreu. _ Era um ótimo marido, nem conseguia ver os jogos, se eu não estivesse ao seu lado. E tome choro sentido. Estava de fato desesperada. O amor é complicado! Termino, agradecendo o livro, lido no descanso de Itaipava, quando fugimos dos calores do Rio, neste fevereiro/março e dos achaques da idade, voltando agora para a luta diária, que de toda a maneira é bem vinda. Se não houvesse rotina, não haveria férias. O Outro lado foi ótimo companheiro, um livro que leva a reflexões, até para quem entende mais de uso interno, que de literatura.
Pedro Franco.
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Só Agora
Cara Rejane
Perdoe-me pela infinita demora!
Escrevo, enfim, para comentar rapidamente seu “O outro lado das coisas”, que li nesse verão.
O Ivan Proença está certo quando fala da alta carga de indefinição de sua escrita.
Você aposta, sim, no difuso.
Acredito que quanto mais você se libertar da realidade bruta e se embrenhar no difuso, escreverá melhor.
É o que consigo dizer.
Obrigado pela confiança e amizade.
Um abraço do
Castello
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O mel e a cicuta
Alberto Madeira
Romance histórico
Editora Ágora, da Ilha. Rio de Janeiro, l999
O escritor Alberto Madeira nos envia o seu mais recente livro, produto editorial do corajoso Paulo França. Um bom augúrio para o ano que começou há pouco, uma editora pequena, um livro de qualidade. Em cerca de 110 páginas, o autor nos situa, de imediato, no século IV a.C. do apogeu da Filosofia, da arte e da cultura, em contato com deuses e sábios, no cenário encantador do perdido mundo helênico.
Romance histórico? Vejamos, O gênero caracteriza um produto do romantismo literário, que descreve a “saga de um herói insatisfeito, problemático.”(e temos aqui um conjunto de várias sagas, de muitos e variados heróis) todos, parafraseando Lucáks, “em busca de valores autênticos num mundo degradado”.[1]
O estilo da narrativa também nos deixaria em dúvida, quanto à classificação. Teríamos, antes, o relato das lembranças de um homem, matéria acumulada no mais fundo de si próprio, portanto, a trajetória humana e divina dos seres da sua contemporaneidade, digamos, suas recordações, respeitáveis e dignas: o memorial de Aristipo de Cirene, – de quem a História não guardou um retrato muito definido. Em certo sentido é um livro didático, porque exibe a história da filosofia como painel; e por outro lado pelo seu próprio tema: as três viagens que Platão fez à Sicília e a Siracusa, por volta de 394.aC. Mencionar Platão- subentendido, Sócrates, é falar em educação, é falar em ética, que pela primeira vez é associada à arte de governar. Didático, repetimos, porque através do método histórico, destila teses e fatos comprováveis, respaldados por grandes e sérios historiadores. Mas é também uma ficção, um romance, na medida em que recria existencialmente um mundo onde imperam as paixões, tão refletidas e dissecadas pela dialética do platonismo. E nessa direção não está nunca ausente a curiosidade do leitor, num encadear-se de situações muito bem dosadas, em que compartilhamos dos sentimentos dos personagens, dos acontecimentos, expondo-nos à catarse, elemento que caracteriza bem este gênero literário, na medida em que nos transfere expectativas. Lembrar que em nosso contexto cultural nem todos os leitores são iniciados, e o livro pode, perfeitamente, semelhar um relato de aventuras exemplares.
Alberto Madeira é um escritor vigoroso, respaldado por um sólido conhecimento dos textos clássicos, trafegando à vontade pelo período áureo da helenidade. Disto decorre o fator de curiosidade do livro, que tem a sua temporalidade no período mais instigante da antigüidade clássica – o século de Péricles. Deixa entrever seu talento de romancista, prática que trouxe do exercício de autor bem sucedido de novelas, tendo ganho, inclusive, vários prêmios literários, numa época em que a radiofonia concentrava toda a possibilidade de entretenimento popular, no ramo da comunicação auditiva. Num tempo em que se exigia qualidade nos textos seriados, que faziam muito maior apelo à imaginação dos ouvintes, pela falta do elemento visual , recurso televisivo abundante, nos dias.de hoje.
Mas o mel e a cicuta é bem mais que um romance histórico, um memorial, uma peça didática ou uma reflexão filosófica. É tudo isso, e mais – de que valem classificações? Os pensadores nos deixaram a lição da relatividade de todas as coisas e nos advertiram que a análise ideal da realidade depende do lado da caverna onde a pessoa se coloque.
Assumindo o eu narrativo de Aristipo de Cirene, filósofo menor, um dos precursores do epicurismo, discípulo de Platão, e a quem classifica “espécie de Voltaire da antigüidade,” o autor desfila acontecimentos importantes que se deram no Peloponeso. Não só as viagens de Platão, mas as sagas de Dion, de Lisias, num contexto em que aparecem as figuras de Alcebíades, Trasíbulo, Timon, os dois Dionísios. Faz desdobrar um amplo painel da época, das leis e das guerras, da vida e cultura atenienses, sempre exalçando os fatos reais e a trajetória das idéias.
Refaz o contexto de Atenas e as instituições do tempo, os hábitos e costumes desse período histórico. Refere o episódio ímpar da morte de Sócrates, forçado a beber cicuta, exemplo materializado da sua ética particular, registrando o desprendimento diante da execução, consolando e encorajando os amigos que se lamentavam, interiormente convicto de que “o principal não é viver, mas viver bem”, isto é, “de acordo com a justiça”, apesar de saber-se vítima da injustiça que contra ele cometiam. Presencia a morte ignominiosa, daquele que privilegiou a elegância até os momentos finais, obedecendo às ordens do carcereiro. O “mais sábio dos homens” teria que despertar inveja e despeito no coração dos poderosos, para quem a moralidade nas ações era coisa indigna de cogitação. Fora ele o primeiro filósofo a pensar o papel da ética na política.
A estrutura do livro, em tom confessional, composto a partir dos textos clássicos, das próprias cartas de Platão aos discípulos, revivendo as lições de Sócrates, a criação das Academias, as razões do método, etc,- se faz, assim, muito original. Como ficção, satisfaz. Dos muitos episódios, qual seria o mais saboroso ? Timon, o misógino, que se dizia seguidor de Heráclito, ao perder seus últimos bens, entregando sua luxuosa casa aos agiotas, deverá cortar uma vetusta figueira, cujas raízes estariam prejudicando as fundações. Sobe nela e faz um discurso aos que desejassem enforcar-se, para que a aproveitassem antes de tombá-la. Estes, e demais fatos da sua escandalosa vida seriam pequenos exemplos desse texto primoroso. Sua leitura é uma delícia, resgatando-nos o prazer de ler, fugindo ao ramerrão costumeiro da literatura atual, que pretendendo investigar razões freqüentes nos dramas contemporâneos se perde na impossibilidade de descobrir as motivações de toda a miséria humana em seus diversos níveis.
O mel e a cicuta, na sua simplicidade linear, sem complicações ou sofisticações, nos deixa, entretanto, com a certeza que, apesar dos esforços dos pensadores, a procurar libertar a alma humana das paixões más, a humanidade, infelizmente, continua a mesma, a cultivar mesquinhezas, e ainda não aprendeu a pautar a vida pelo Bem, que é a suprema finalidade da existência. Como diria Platão.
Rejane Machado.
Rio de Janeiro,março de 1999
[1]Cf..LUCÁKS,G. La théorie du roman. Paris, Édition Gonthier,l963. -
À amiga
Lendo O outro lado das coisas “
Tudo que teu de alma escreve
cara Rejane |Machado,
é da sensibilidade
que nos traz, lúcido e leve,
um voleio pensativo
que vem sempre do outro lado
das coisas iluminada.Stella Leonardos
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O outro lado…
Rejane querida, gostei demais das coisas que você viu do outro lado…
Seu livro já começa a ser interessante a partir da capa. Não o li todo, mas sim “algumas coisas”, segundo seus títulos: “Percalços, “Sinfonia pastoral” (nota-se que a música é um de seus xodós), “Sortilégio”, “O poder da doçura”, “Mon cher ami” e “Cotas pra eles”.
Estou com visita em casa, razão por que não tive tempo para ordenar a leitura. Mas o pouco do que li, confirmou-me o que eu sabia: ser você uma excelente escritora. É direta, fluídica, digamos assim, sem barroquismos, e de uma simpllicidade quase comovente, que encanta e ajuda à percepção.
Torno a agradecer-lhe o carinho do envio.
O beijo gordo, grato e comprido da Helena Ferreira.
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Um olhar
Oi Rejane, tudo bem?
Primeiro de tudo, parabéns pelo coquetel de lançamento do seu livro, foi muito legal. Tô aqui no trabalho e acabei de ler, ou melhor, acabei de sair do mergulho interno que o conto
“Um Olhar” me proporcionou. Gostei demais!!! O seu jeito de escrever é muito gostoso, você transita
com uma facilidade adorável entre os tempos presente & passado do arquiteto, de uma forma macia
e cheia de texturas emocionais. Me senti totalmente dentro do conto, integrada com cada personagem
em suas emoções. Foi viagem emocional da melhor qualidade. Obrigada pelo prazer literário que você me imprimiu nessa manhã tediosa de trabalho.Beijos mil
Regina.
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Dois trovadores
Dois amigos a realizar um jogo floral. Cerimônia das mais significativas nos albores de um século marcado por todos os tipos de experiências intelectuais. Originalíssima tertúlia. É significativo que este “desafio” tenha por formato o soneto, que tem pelo menos 500 anos de existência!
Estamos lendo Tempo e Contra-tempo, gracioso livro escrito por dois gigantes da poesia piauiense, uma pequena amostra, melhor diríamos, uma síntese da sensibilidade de dois amigos, tão bom um como o outro, numa realização tão bonita, tão nobre, tão alta, que nos comove o coração. Ousamos dizer que há muito não se edita algo tão especial na sua delicadeza de conteúdo.Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura se mostram, nesse exercício, dois mestres do antigo ofício de porta-vozes do Olimpo.
A partir de um retrato numa parede, questionado em sua fidelidade ao modelo:
/ cujo semblante causa-me estranheza/
um poeta, (Hardi) reflete com amargura: já não é a mesma pessoa. Aquele ser aprisionado na moldura é um estranho. E qual a razão da mudança? O tempo, ele conclui. Chico Miguel, o outro bardo, completa e enigmatiza:
/ tempo passante é sol, passado é lua./ e o futuro ? Nem Deus sabe de nada/
O homem é apenas um ser sujeito à temporalidade, e como tal mutável em sua forma. Mas o espírito! Este não é afetado por aquele fator.Apenas pelo seu aspecto metafísico concreto x abstrato. Em sua natureza o ser é uno, indivisível, sujeito porém a variações do seu psiquismo, este por sua vez dependente de fatores imponderáveis, que afetam tremendamente sua vida humana y compris suas disposições para o viver: a temporalidade é marca da condição humana.
Impressiona-nos a qualidade deste jogo entre dois excelentes poetas. Eles manuseiam com grande naturalidade essa forma difícil que é o soneto, observando todas as regras do gênero, cultivando rimas , métrica, musicalidade nos versos, chaves de ouro e demais procedimentos indispensáveis ao bom desempenho da antiga e encantadora forma poética.Ressuma um ar de repentistas em sua dialética, e na técnica da execução, original forma de glosar um mote, tendo-se em vista o histórico da peleja bem esclarecida no excelente prefácio de Altevir Alencar, que nos apresenta as motivações dos dois poetas. Nada haveria mais a acrescentar, senão ressaltar a qualidade intelectual desses dois amigos que tão originalmente se digladiam em altíssimo nível ao redor deste tema: o tempo que passa e que a tudo consome, levando consigo todos os valores da juventude, mas deixando em contrapartida o valioso legado da experiência; reflexionando belamente sobre a categoria mais importante da vida humana a que todos estamos sujeitos, fazendo-nos títeres das injunções do Sein und Zeit.Poesia que a partir da visão de uma imagem alterada pelo tempo fará todo um questionamento sobre a vida humana, seus valores, sua duração, seu destino. E o resultado é um belíssimo estojo onde guardam as mais belas jóias: a poesia deste Tempo e Contra-tempo.
Numa parede o retrato de um jovem. O que leva o poeta Hardi a sentimentos amargos, após compará-lo com o seu reflexo no espelho ao barbear-se. Sente-se ele, um anacrônico simulacro do que foi no passado. Constata a estranheza: não é ele; aquele jovem foi empolgado pelo tempo! E queixa-se disso ao amigo (FM) que o ouve e consola: talvez o poeta não tenha mudado tanto como pensa. À semelhança de algo que não foi bem olhado e pior visto, tal como uma moça malsentada (FM) de quem um olhar bem-educado evita a exposição direta- a moça mal vestida, – é entretanto, olhada ligeiramente, disfarçadamente, . (como a reparou o solerte poeta FM) que acrescenta: o tempo é assim,nem novo nem tão velho/ e ela logo será esquecida, como visão fugidia que não marcou. Importante é o dado concreto que condiciona a vida humana e. o poeta, insiste, não mudou, apenas se olhou mal, enfatiza: como se olha para uma moça “malsentada.”
O primeiro retorna, compromete-se com a explicação do outro:
É bem de ver que a “moça malsentada”/ referida em teu ótimo soneto/ é uma visão que deve ser lembrada/ (…) /e com ela também me comprometo/;
mas continua firme na observação que constata os estragos temporais.FM insiste, não houve, em essência, mudança. E aqui se inscreve a dialética que subjuga o homem: o ser / o parecer- o espaço é que mudou, é outro agora, conseqüência do olhar apressado, enviezado, como se olha rapidamente, olhando sem querer olhar, para aquela moça descuidada, “malsentada”, a tentar proteger-se de olhares invasivos, curiosos, que pretendem ver mais do que o que em realidade aparece. E o olhar ali não se demora, porque não é de bom tom, é praticado de viés, ou melhor, de retroviés (FM) /como quem olha sem estar olhando/ (ainda (pag 8, HF). Alegoria da mocidade que se foi,. FM analisa o belo quadro (…) tempo não morre e suicídio ignora/ mas se acaso morrer renasce e enflora/ na imagem da moça malvestida.
Estivesse ela, a moça malsentada, bem-vestida, ou seja, com decoro e modéstia, não haveria perturbação. Mas o olhar passando sobre ela virá causar desordens, inaugurando um novo tempo, melhor, uma nova dimensão. Enquanto o olhar a percorre, se estende, se amplia, se transforma, ganhando um novo significado: Pois viva a moça, o renascer da vida! (FM ,pg.11)
É um original duelo, do qual não há vencedor nem vencido. Ambos excelentes poetas, de altíssimo nível, elevando a poesia moderna a píncaros inusitados, nunca desprezando suas origens nobilíssimas, mas aproveitando-se de todo o contributo dos séculos, da tradição clássica.. E muito mais significativo, quando se reflete no que a poesia foi modernamente transformada, nesta tão perversa atualidade medíocre.após tantas experiências infelizes, que alargaram desmesuradamente as suas fronteiras, fazendo em seu espaço sagrado penetrar quem dela não tem noção mínima; sacramentando o equívoco, pois o Modernismo não soube defini-la, permitindo que qualquer sandice escrita linha por linha receba o nome de Poesia, e de poetas os seus praticantes. Como resultado, imprimindo-se tanta nulidade sob a vetusta denominação.
Momentos há em que a fina expressão de HF, se restringe mais à norma culta, ao sentido nobre, ao tema elegante, enquanto que F, Miguel prefere a palavra mais coloquial, o estilo mais descontraído, mais”moleque,” menos formal, como quem brinca para diminuir a tensão. O que não é, de nenhum modo, demérito, ao contrário, senhor da palavra, ele pode se dar ao luxo lexical. Até mesmo como quem se ri da desgraça para, nobremente, aliviar a angústia existencial do amigo, minimizá-la numa superioridade de propósitos, como se espera da verdadeira amizade- parecendo não dar tanta importância ao fato que amargura o outro, desvalorizando o inexorável, insustentável peso da realidade, antes a zombar dela, experiente, sabendo que é necessário um olhar mais profundo para alcançar, sob a forma externa, a autêntica verdade, o fundo verdadeiro, a essência, o ôntico.
FM volta à carga
:/quero insistir que a moça malsentada/ é o mais lindo dos quadros que conheço/ e aquele vestir pouco não tem preço,/ faz a curva da idade abençoada/.
Enquanto que Hardi duvida que se possa ver o tempo da mesma maneira que à moça na calçada, entretanto se reanima, reconhece o papel do amor (pág. 12) em cuja mão é bem conduzida /a escrita do presente e do futuro/.
O pragmático F. Miguel refuta a completude dos espelhos que nesse particular tem meu respeito/ pois a mão que os produz, produz sonetos/.
Nihil obstat- decreta. Viver o tempo, não considerar o trabalho/ como um deus? Viver / em vez do dia a noite e seu orvalho/ em vez da terra as luzes lá dos céus/ – receita do poeta para o que não tem remédio. HF não acha possível definir o tempo em nível poético: se ele salva-nos da mesmice, tudo consome, entretanto, na sua caminhada inexorável. Mas FM contradiz: se nós passamos, ele também vai se consumir, vai passar. há de chegar ao fim. A pergunta de Hardi, agora, é: o tempo existe? O peso dele é desumano e o poeta se acaba em dúvidas, concluindo: tempo ganho é também, tempo perdido. A resposta vem, em forma de obra prima, com todas as antíteses possíveis de significado, em nuances várias, cheias de contradições, características do pensamento filosófico: tempo é o que bate em nosso coração ( Chico Miguel). (…)um tempo amado e um tempo de canção(…)um tempo acumulado em tempo-sim,/e um tempo esvaziado em tempo-não- magnífico fecho de magnífico trovador.
Procedimentos poéticos vários, dentro da estrita forma fixa, como movimento dialético, ocorrendo antíteses,veja-se Acerto dos contrários, pág. 40 (de Hardi), com sua magistral conclusão: o silêncio de luz do pensamento.- construções circulares, leixa-pren (procedimento da poética medieval, no retomar de um verso ao final e elaborar a partir dele uma nova seqüência) ritmo regular e métrica rigorosa, a boa e ortodoxa técnica do alexandrino à pág. 53 a demonstrar a versatilidade de Chico Miguel, mas bastante liberdade de expressão no uso das figuras de pensamento e de palavra e na escolha das camadas mórficas e sintáticas.Notar o bom uso das convenções literárias, o amor cortês, a delicadeza com que se aproximam do ideal, o carpe diem, ubi sunt, enfim, esses dois poetas brincam com as expressões, revirando-as pelo avesso, extraindo-lhes todas as possibilidades expressivas. Na pag. 51 veja-se uma construção bilaqueana, a ocorrência de metalinguagem. E em 54/55 voltam a brincar com o mote: do último FM para o primeiro de HF
Dissemos: mote glosado , em que um deles apresenta a idéia e o outro se apropria dela, numa ocorrência sutil dos verbos dicendi, quase à semelhança de um diálogo em que os dois terçam suas armaduras poéticas- e dissemos construção circular. Demos um exemplo à página 47, na qual F Miguel termina sentenciando: o tempo somos nós e o mundo inteiro” que Hardi retoma e inicia à pág. 48 : O tempo somos nós e o mundo inteiro/.
Voltemos também, à graciosa imagem recorrente da moça malsentada / em justa e curta saia/ que faz o versejador Hardi, em estado de sonetear, se sentir igual a ela, desconfortável, tentando proteger-se de olhares cúpidos, safados, mas revejo a cena e nela me aconteço”, utilizando-se da expressão maravilha de visão- salvando-se do esperado naufrágio ao contrário, e gloriosamente atingindo / aquela nobre praia/ com louvor. A distância enorme entre o retrato e o retratado provocando a angústia da constatação da corrosão a que tudo está sujeito, fá-los concluir que o tempo é um contratempo/ e masoquísticamente chorando pitangas: Que saudade de nós daquele tempo! FM retoma este sentimento e HF aceita o irremediável, as escoriações que o tempo causou ao corpo: afetando uma alma diamantina”.
Concluem que o mais importante é a permanência da poesia e o maior valor a amizade que o tempo consolidou. Chico Miguel liga o carro da poesia. Sua visão pragmática conclui que não há despedida, que a gente volta sempre ao mesmo tempo, o que quer dizer: permanece a chama acesa da poesia, que consola, honra e preserva.
Obra-prima de lavor e invenção, de inspiração superior, esse belíssimo livro, que mereceria figurar em todas as bancas e livrarias, fossem mais sensíveis ou inteligentes os responsáveis pela divulgação da boa literatura brasileira. De parabéns esse pequeno grande Estado que tão grandes poetas produz. De parabéns nós todos, brasileiros, por podermos contar com uma obra que honra nosso passado de excelentes escritores , de grandes artistas do verso, e que nos permite ter esperanças ao ler obras desse quilate, em meio à enxurrada de equívocos editados modernamente. .Rejane Machado ( ano da graça de 2009)
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ADVERTÊNCIA AO LEITOR
A utilização do discurso indireto livre, e seu competente monólogo interior,- o chamado fluxo de consciência, deve-se esclarecer, – antes de se constituir sofisticado método de escrita – é uma profunda esperteza do Autor.
Porque assim procedendo, ele se defende de certas encruzilhadas que alguns leitores poderiam lhe preparar. e não está obrigado a responder perguntas às quais não saberia dar solução.
Quando há um narrador que conduz a narrativa dando informações ao leitor, fazendo ele mesmo o retrato dos seus personagens e conduzindo-os daqui prá ali, exige-se da sua omnisciência esclarecimentos sobres fatos e pensamentos das suas criaturas. Então abre-se uma discussão inimaginável sobre a coerência ou não daquelas ações, sobre a validade delas, sobre a verossimilhança e mil outros aspectos que envolvem a criação de um universo ficcional.
O que não se dá com o modo impressionista de narrar, em que o Autor não sabe de antemão tudo o que aconteceu ou vai acontecer ao personagem e portanto não lhe tira e nem ao leitor as chances de surpreender-se com a vida, com o fluir dos acontecimentos do mundo ficcional que criou.
Antes de começar a ler este livro, o leitor deve estar prevenido de que:
1) os personagens são seres de carne e osso, dotados de sensações próprias. São reais, portanto, dentro da sua realidade virtual;
2) sendo reais e dotados de autonomia e independência ( que lhes é dada pelo próprio modo impressionista utilizado para a narração ) têm total direito às suas próprias impressões e sentimentos, cabendo-lhes inteiramente e somente a eles a responsabilidade de suas ações, reações e pensamentos : frenéticos ou blasés, sutis ou endemoninhados, pretensiosos ou arrogantes, eles têm toda a liberdade para apreciar a realidade ao seu modo, e sentir as coisas de acordo com o seu temperamento, enfim, de viver como lhes agrade ou como lhes seja possível, dentro do seu quadro de referência;
3) o Autor prefere não opinar, não conduzir a narrativa,não interferir na dinâmica da história. Cada aspecto da natureza ou cada reação desencadeada por algum acontecimento é visto e apresentado- sempre a partir da ótica do personagem que está em foco- assim, se o espaço exterior é belo, ou feio, ou triste, não é o Autor quem o diz; é o personagem que assim o interpreta; da mesma forma se uma ação é má, se é ou não correta, moral, antiética, o que seja, – isto lhe é completamente indiferente.
Dirá, então, o leitor: para quê um narrador? Se ele não conduz os personagens, não nos informa sobre eles, não dá sua opinião; criou-os e os soltou no mundo (da ficção, claro, dentro da realidade da literatura) – ele seria uma figura dispensável.
Respondo: alguém teria que juntar as letras e os sons, organizar uma certa sintaxe, dispondo uma tênue trama de uma certa maneira que ,como diria um personagem secundário, surdo e míope, “formasse um todo agradável”, sem espinhos, sem choques. Esse alguém é, teria que ser, o Autor do livro. E este, o seu único mérito.
Rejane Machado
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