Archive for the ‘Críticas’ Category
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DIMENSÃO DE UMA CONTISTA
Francisco Miguel de Moura (da Academia Piauiense de Letras)
Quando aparece um contista autêntico, que não se vale do veículo artificiosamente para cobrir deficiências outras,digamos , de narrador, não há como não aplaudir, pois a raridade em boa literatura é norma. Apontamos hoje, o caso de REJANE MACHADO, premiada por primeira vez em 1969 no Concurso “Orlando Dantas”, do Diário de Notícias/INL, mas somente em 1972 aparecida em livro com A dimensão das pedras.
A primeira coisa que temos a apontar na ficção de Rejane diz respeito à temática, muito simples, muito comum- diríamos -à primeira vista, – e que é marca de toda sua escrita, desde então. É uma narrativa que em muitas e muitas passagens ressumbra o gosto de crônica, não me referindo, está claro- àquela crônica que refaz um momento lírico qualquer,delícia de muito poeta menor em prosa.A crônica de que falo aqui é aquela que escava no quotidiano a matéria e a traduz em linguagem correntia e legível, muito do feitio da prosa de MACHADO de ASSIS ficcionista,essa crônica que diz muita coisa difícil numa história desenvolta, quase a-literária no bom sentido do termo.
Em segundo lugar, devo dizer que o toque de personalidade não se dará com estratagemas e charadas. Esse toque personalíssimo da linguagem que chamamos de estilo, percebemos sutilmente fluir no discurso de REJANE MACHADO, transfigurado em ternura e humanismo sem pieguices: eis a medida da sua escritura.
O livro tem unidade de estilo e unidade temática centrado em temas da solidão, desencadeia mistérios da alma, numa desconversa, num descontraimento quase total, dando-nos aquele sabor de crônica de que falamos acima. Põe, assim, o tortuoso das consciências a descoberto. Quase a descoberto, digo,não para minimizar a expressão, certamente,porque em toda sua prosa encontramos a ternura dos pequenos acontecimentos familiares dentro de uma atmosfera que nos sensibiliza e nos afeiçoa.
Prosa de mulher? Sim, mas a autora sabe encontrar um plano ideal onde todos nos igualamos, aquele terreno da dor íntima,do medo, da solidão, da procura do compreender e do ser compreendido. Em certas passagens- e não muitas- sentimos que estamos realmente vivos, num mundo onde há pessoas irmãs no sofrimento e na dor mais profunda.Aqui e ali, uma pitadinha de filosofia que não chega afetar o todo, mas só entremostra a ensaísta que é : A vida é luta e só os fracos tombam, As cinzas, quentes ainda, dos acontecimentos encarregavam-se de mostrar que nada há de mais frágil que a condição humana, e que a vida é apenas um momento.
É desses momentos que a Autora tira o máximo para seus contos.A dimensão do homem, nos seus pequenos-grandes dramas diuturnos, vitais, em música lenta e melodia imperceptível, é-nos oferecida nas 131 páginas de A dimensão das pedras, pedras que formam o arcabouço onde cada pessoa curte sua própria vida e sua própria solidão e esmagamento, atestando desamores, cobiças e intenções perversas ou desonestas, que é o próprio do individualismo burguês no nosso contexto cultural.
“Caderno de Divulgação Cultural” IN: O Estado, Teresina, Piauí, 22/12/74,p.6
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