Archive for the ‘Crônicas’ Category
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Querido menino
Querido menino, você fazendo 29 anos? Que coincidência! Eu também tenho 29! Como é que pode, não? Que importa se eu te mudei as fraldas, se te botei pra dormir, cantando “Boi, boi, boi da cara preta/ pega este mnenino que tem medo de careta/ que importa se eu te dei papinha de nenê na boquinha, e consolei o teu choro tantas vezes, se te contei histórias fantásticas, se fizemos bolinhos de areia na praia, se em MG, na fazenda do vovô Tião levamos uma corrida de uma vaca, e tinhas dois anos e eras um “boizinho” de grande e pesado , e eu corri feito uma doida, botando o coração pela boca, e a vaca ficou dando marradas na porteira, mas nós conseguimos chegar lá… e rimos, aliviados por nos termos livrado do perigo, – e se te dei banho no quintal, de mangueira, água gelada num mês de julho, frio pra danar, porque ‘alguém”, (VOCÊ)junto com seus primos Pedrinho, Helena e a irmã Cecília resolveram tomar banho de lama, num buraco aberto para uma piscina, e a as roupas ficaram num estado lamentável,mas VOCÊS FORAM FELIZES, É O QUE IMPORTA.
Então, fazes 29 aninhos! É hora de enfrentar a realidade, pensar no futuro, na filhotinha que Papai do Céu te deu, terminar o teu curso, parar de botar azeitona na empada do próximo, embora tenhas o coração sempre aberto para o outro, ter a consciência tranquila, nada te acuse de indigência, indiferença,incompreensão pra com as dores do irmão(ã),enfim, é hora de aproveitar bem todas as oportunidades que Deus te deu, tua inteligência, tua intuição, tua capacidade de Professor Pardal, que herdaste do teu pai e do teu tio- até onde eu sei, e como Sócrates, ” eu só sei que nada sei”. E é hora também de parar de blá-blá-bla, de te contar sermão, e te dar um beijo e um puxão de orelhas, porque és malvado para com uma vovó que tanto te ama, e não vens nunca me ensinar pela centésima vez como é que se opera esta máquina do Dianho. Deus te abençõe, meu filho, e te cubra de felicidades junto às pessoas que te amam.
Tua vovó de 29 anos
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Memórias
Aos dez anos a primeira página. Uma redação escolar, muito valorizada por uma professora primária, uma mulher sensível, cujo nome não guardei. Só a tratava por Atalita, que era o seu prenome. E não me lembro , absolutamente, da sua figura física. Parece-me que tinha a voz doce, os modos calmos- reconstituo alguns dos seus traços de modo indireto, a partir das recordações pessoais de minha mãe, que com ela trocou palavras dedicadas á aluna aplicada, que tinha jeito para escrever. Mas no verso da composição a sua letra bonita e firme deixou-me um recado, que no momento não foi de modo algum levado em conta, mas que funcionaria, mais tarde- porque tudo tem o seu tempo- quando uma indigesta predisposição a um estado depressivo ameaçava um coração machucado.
Naquele momento exato a mensagem de estímulo cumpriu sua destinação. Levantou o moral abalado por uma circunstância, que, afinal, nem devia ter sido assim tão importante, pois que se apagou de modo brusco. No bilhete, ela me recomendava apenas , ter “cuidado com os pronomes”, saudava o trabalho “literário” e vaticinava: “quem sabe, no futuro, não será você uma escritora?” E a minha querida mãe acreditava firmemente nisso. Devo a ela esse estímulo.
Alguns dias depois, enquanto ouvia a Sinfonia Pastoral, comecei a interagir mentalmente com aquele homem sofrido que caminhava pela floresta de Kahlemberg, profundamente integrado com a natureza, imerso em seus pensamentos, questionando os porquês da vida. Tão correto era ele, o coração amargurado pela ingratidão daqueles a quem amava, incompreendido a esconder uma deficiência física impensável a quem trabalhava com sons, Ele mesmo. O solitário mor. Então comecei a escrever: “ Ser solitário era por si norma e destinação…” Este conto , mandei-o para a seção literária do Diário de Notícias, de saudosa memória, excelente jornal fundado por Orlando Dantas. Um suplemento de várias páginas. Crítica, poesia, contos, reportagens literárias, entrevistas com escritores e intelectuais, tudo o diário abrigava. Altíssimo nível. E me pergunto porque não há hoje nada que se lhe compare. Por falta de público? Falta de matéria? Não creio em nenhuma desculpa dessas. Nem mesmo aceito que os tempos “modernos” ( que é isso?) não propicie mais lazer para as pessoas, etc, etc. Falácia maior não há. Para quem foi inoculado com o micróbio da cultura estas desculpas não servem. Tem-se uma grande necessidade de ler. A chamada mídia não resolve essa fome de cultura. A tevê é pobre, os jornais abrigam mais propaganda comercial do que outra coisa, afinal vivem dos anúncios, a política enoja, porque o que lhe poderia dar vida:- a ética, está em franco desuso. Afinal, revistas proliferam, publicações aparecem e desaparecem, vertiginosamente, engolidas por um sistema econômico de grande perversidade, ao qual não podemos fugir. É a maldita situação econômica. E os suplementos dedicados às letras encolhem, desaparecem, aos poucos. É a queda dos valores mais necessários ao sentido da existência.Apesar de proclamarem a morte da literatura ( em todas as suas formas) há um movimento ascendente e contínuo que não se pode deixar de reconhecer. Nem damos contas do montante de eventos , dos quais precisamos nos “defender”, tal a quantidade de convites , todos os dias , para novos lançamentos de livros, palestras, exposições. O que está havendo? Alguém me explica?
Comecei assim, mandando pelos Correios este primeiro conto, que foi publicado no dia de de 1968, pelo qual recebi, também pela mesma via um cheque do qual não me lembro o valor- o que não teve menor importância, senão pelo que representou : colocar-me num grande jornal, ao lado de “cobras”, iniciando um período de colaborações que se estendeu por muitos anos, a outros importantes veículos de comunicação: Leitura,Bancário, A Cigarra, Convívio, Ficção (revistas), Correio da Manhã, Jornal de Letras, Jornal do Brasil, onde sob a batuta do saudoso Lago Burnett, estacionei por longo tempo, fazendo agora somente crítica literária, alavancando autores estreantes, entre eles José Mauro de Vasconcelos( Meu pé de laranja lima), Rubem Fonseca ( A coleira do cão), Caio de Freitas ( Um canal separa o mundo)- e muitos outros que me mandavam seus livros.Data daí a minha amizade com Francisco Miguel de Moura, poeta de Teresina, Armindo Trevisan, de Porto Alegre e Carlos Nejar, também do Rio Grande, Nélida Piñon, Stella Leonardos, Waldemar Lopes, Ricardo Hofmann de Santa Catarina,meu Deus, quanta gente.
Nesse entremeio ganhei uma meia dúzia de prêmios literários. Durante os 4 anos em que estive na Faculdade de Letras, todos os anos tive o nome no Esso Universitário, fazendo o Professor, Doutor Afrânio Coutinho, “ confraternizar-se com o alunado desta Faculdade “ por este motivo. Aí veio o prêmio Orlando Dantas do JB/INL, outro prêmio da Academia Valenciana de Letras, o Fernando Chinaglia, o da Academia de Letras da Bahia, de onde me surgiu uma amizade com Jorge Amado, pois ele me prestou algumas informações para minha tese de Doutorado em Filologia Românica, colega, amigo e compadre que foi de Dias da Costa, o meu biografado de quem fiz uma biobibliografia levantando o prêmio de ensaio, além de me valer grandes amizades e emoções em Salvador, maravilhosa cidade.Outros prêmios vieram
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Preconceito
Todo preconceito é odioso. Na etimologia da palavra já se percebe o absurdo de uma atitude anterior, feita sem base, no vazio, conclusão acabada antes de começar uma análise, e que vai dirigir a decisão final para um caminho que poderá não ser o mais certo ou o melhor.
O preconceito parte da má vontade e segue pela via da premissa apressada, mal ou não analisada em seus fundamentos, levando a uma falsa conclusão. De mim para o outro o preconceito é inaceitável. Intui que eu seja melhor do que o meu próximo. E melhor em quê, afinal, se tudo é relativo?
No dia 19 de novembro, domingo, no canal Brasil, cerca de 5 horas da tarde, a propósito do dia do Zumbi- consciência negra- assisti a um programa que pretendia debater o tema negritude. Três belas mulheres, inteligentíssimas, cultas e elegantes, um delas artista de novelas de TV, outra, doutora em, parece-me, sociologia ou similar, e a terceira desempenhando um alto cargo no governo- expunham bravamente em público seus pontos de vista, apontavam injustiças da sociedade, tentavam soluções, etc. com respeito ao problema.
Desfilaram supostas injustiças por conta da sua condição. Entre outros absurdos alegava-se que o negro não desempenha no contexto brasileiro um papel justo. E não só na vida real. Em novelas, diziam, se o tema é, por exemplo, escravidão, os negros são apresentados como figurantes ou como escravos, simplesmente, não lhes dando, os autores, oportunidades para encarnarem personagens com sentimentos ( foi isto que eu entendi: não desempenham papéis principais, sempre como empregados domésticos); atribuem- lhes sempre as piores tendências; anúncios comerciais mão contemplam as características do público negro; ganham menos em comparação com os brancos; são sempre discriminados nos locais públicos, e suprema provação:são-lhes negadas as oportunidades para acesso á educação superior.
Reconheçamos a injustiça histórica com respeito aos negros. A abolição decretada a 13 de maio não foi, realmente, uma libertação; provavelmente, para muitas pessoas, ali começava o verdadeiro calvário, porque vivendo em dependência extrema foram jogadas à vida , sem preparo ou recursos para sobreviver por sua própria conta.. Aquela grande mão-de-obra não foi absorvida como seria de desejar, muitos ficaram errando pelas estradas, morrendo à míngua, outros se suicidaram, por não encontrar recursos para continuar. E os quilombos se multiplicaram, trazendo problemas de todos os matizes: sociais, de moradia, de segurança, etc.
Muitas das queixas desfiladas não procedem. Não se está levando em conta que metade dos males atingem também, à população não-negra, que também sofre com desemprego, com moradias indignas, com discriminação social, sem acesso à educação, aos bens maiores de consumo,etc., como um todo da população brasileira. Mas é preciso ser cego para concordar com todas as reclamações.
No quesito TV penso que há exagero nas queixas. A televisão acolhe generosamente a todos os que têm talento. Será exaustivo mencionar a grande quantidade de comunicadores negros, apresentando jornais, fazendo reportagens, e outras funções; nas novelas; mesmo não sendo habitué do gênero, poderia citar vários trabalhos em que artistas negros fizeram com sucesso, papéis principais: Chica da Silva, Da cor do pecado, Cobras e lagartos, como exemplo, desempenhando com muito sucesso e competência, papéis relevantes, principais, mesmo, nas tramas. Cidade dos homens mostrou o cotidiano de jovens favelados, enfatizando nobres caracteres, dentre a crueldade do tema decorrente do contexto de gente pobre e infeliz- não importa se negros se brancos, excelentes atores que fazem papéis inesquecíveis, nem sempre encarnando domésticos.E os brancos que vivem eternamente personagens empregados domésticos, feirantes e quebradores de galho,- tal como na vida real?
Já é tempo de os negros deixarem, eles sim, de ser tão preconceituosos! Têm que aceitar suas dificuldades de vida como contingência da sorte. Ninguém pediu para nascer branco ou preto, e se nasceu , o que tem a fazer é conformar-se, tanto como quem nasceu deficiente físico ou mental. Não é culpa da sociedade. Ele que vá à luta para reverter situações de pobreza, de auto-estima, de mais-valia. Ouso dizer que nosso preconceito é social, e não racial. Primeiro, porque a raça é uma só: é a raça humana; segundo, porque seria exaustivo nomear todos os negros e mestiços que vencem e venceram na vida, que se destacaram e destacam nos esportes, na cultura, nas artes do Brasil. Se sofremos o carma da escravidão é natural que nossa população demonstre essa influência, esse componente da nossa formação étnica, que aliás, deu um maravilhoso resultado no que tange á aparência . Mas é preciso reconhecer que o negro que tem valor , que luta e vence, é respeitado. O problema é deixar os complexos de lado e se assumir tal como Deus nos fez.
Preconceito existe em todas as áreas: a mulher que dirige é sempre culpada pelos acidentes de trânsito, não importa que sua carteira não apresente nenhuma infração às leis; o velho que se desloca nas ruas é xingado porque anda devagar e atrapalha os jovens que têm pressa; os muito gordos são ridicularizados, os muito magros, igualmente; os escolares são maltratados pelos motoristas e trocadores de ônibus, não importa lá que cor tenham; brancos mal vestidos são convidados a usar o elevador de serviço, tal como negros mal vestidos. Há preconceito contra o nordestino, o pobre paraíba¨ que nos constrói as casas, que nos cuida os condomínios; há preconceito contra os gringos, contra os lusos, os baixinhos, os gordos, os magros…
Uma das doutoras queixava-se de nunca ter visto na televisão anúncio para seu cabelo. E ela mesma usou a palavra¨pixaim¨. Pois eu vejo a todo momento anúncios para xampus para cabelos secos /ondulados/ lisos/crespos. Por quê ela não se enquadra nessas classificações? O que é cabelo pixaim? Só conheço aquelas definições acima. Imagine se se ouvisse na tevê um demonstrador fazendo reclame de xampu para cabelos ruins, sabonete próprio para peles negras? A grita seria geral.
Muito positivos são esses programas, em que pese o absurdo daquelas colocações. Reivindicando, injustamente, um maior reconhecimento dos poderes públicos e da sociedade em geral, só por causa de um grande equívoco, afinal ninguém tem culpa por ser negro. Ninguém escolhe a cor com que pretende nascer, a sua ou a de seus descendentes.
Biológica e fisiologicamente não há diferenças entre os seres humanos.Todos temos os mesmos característicos, com pequenas diferenças individuais. Se se descascar a pele escura de um negro ou mestiço e a de um branco, colocando-os lado a lado ninguém poderá dizer: este é o corpo de um branco, este é o de um negro! Não há ninguém no mundo, que, através do exame de sangue de um negro e/ou de um branco possa diagnosticar a quem pertence este, a quem pertence aquele. A fisiologia de ambos e as necessidades básicas como pessoas humanas são as mesmas; então, onde estão as diferenças? Vamos parar com isto? Vamos parar de enxergar chifres em cabeças de cavalos e encarar as coisas como são. Temos no Brasil, em todo os setores de atividades brancos bons e maus cidadãos, como também temos negros bons e maus cidadãos. Temos juízes, ministros, artistas negros . Têmo-los talentosos, e não-talentosos, não importa se de um grupo ou de outro- escritores, pensadores, professores, artistas plásticos, músicos- nosso povo é realmente especial.
Por último justificou-se as famigeradas cotas para a universidade que supostamente beneficia a população negra. Não se leva em conta grande maioria de população de não-negros carentes, pobres, moradores em favelas.
A cota reforça o preconceito, porque pressupõe incapacidade para enfrentar o vestibular, os negros são incapazes, coitadinhos, não podem competir com os brancos, são inferiores e precisam ser favorecidos com essa vantagem. Não se leva em conta que não há injustiça, o que há é um funil, motivado pela pequena oferta em oposição á grande procura pela universidade. No cartão de respostas do vestibular não há sequer fotografia, e só se pede marcar as respostas, não se podendo saber se é de um aluno branco ou não branco. O remédio é investir nos cursos fundamental e médio de boa qualidade, com muita fiscalização pelo Ministério da Educação, com oportunidades iguais para todos. Nada de cotas humilhantes para corrigir, ou resgatar supostas injustiças.
Assumir-se como é, como se nasceu, como Deus nos fez. Ninguém é infeliz de nascença. Torna-se, quando fica estagnado, chorando, coitadinho, exigindo cotas para uma impossível igualdade.
E para encerrar, não há no Brasil raça pura. Somos todos produtos de uma feliz miscigenação de três grupos: brancos, negros,índios. E graças a Deus o resultado foi muito bom. As belas figuras que discutiam sua ¨pseudo condição¨o demonstravam naquele momento.
Rio,setembro de 2006
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NOSSO BENJAMIN
É muito vivo e esperto nos seus quatro anos. Andou, como os demais, antes dos dez meses, porque teve como arena de exercícios uma sala bem grande , limitada por uma grade que não o deixava entrar na cozinha, lugar muito perigoso, povoado de monstros malvados que afogam, queimam, furam, causam danos terríveis, ameaçam a integridade, podem até destruir uma pessoinha tão pequena. Desde os sete meses de idade ele se pendurava, com dificuldade, na indigesta grade que o separava de coisas tão instigantes à sua curiosidade natural, e ficava namorando a mamãe que praticava um ritual estranho naquele laboratório, produzindo coisas mornas, agradáveis de ingerir, (que importava que aquilo se chamasse sopa ou mingau?)- e beberagens fresquinhas, docinhas, num copo todo enfeitado com o Mickey e a Minnie.
Às vezes ele chora, esfregando os olhinhos, e então é suspenso a um colo muito macio, ganha beijos, e logo jogado numa banheira com água tépida, na medida da gostosura, mas ele chora, impaciente, porque apesar de adorar a água, está a fim de se atracar com a mamadeira, e aquela mulherzinha melosa acha que ele tem que estar limpo e de roupa mudada, antes de ter a a satisfação básica satisfeita, soubesse falar e contrataria um advogado para pugnar por ele, Os direitos humanos são inalienáveis!
Este sujeitinho vai dar no mínimo, um Veterinário, garanto para o seu pai. Porque um tal amor pelos bichos é de comover. Não tem medo do Dick, o nosso policial, que late grosso, dos gatos, quando puder, ele vai fazer “gato e sapato” deles: puxa-lhes o rabo, puxa-lhes as orelhas. José, que é um ser blasé, pouco liga para tais atentados, sai de lado, procura um lugar inacessível aos “ataques”, mas o Bonifácio vira-se para ele, bufa, como zangado, ( mais tarde, esquecido da ofensa, vai se aninhar perto dele, e muitas vezes dorme ao seu lado, próximo ao colchonete do cercadinho). Vigio para que não o arranhem, porque ele apenas deseja brincar com eles, como brinca com o Lulu, só que este ursinho é manso e pacífico- se bem que deve ter uma orelha gostosa, boa de mastigar. Defendo-o, ensinando-lhe que o Lulu não é chupeta, ele tem uma, à qual não dá muita importância. Ama também os passarinhos, o canto dos canarinhos o enleva. E deve ter reparado que o Barbudinho (é um coleiro? nunca sei!) adora a música clássica, e canta, canta junto com a Maria Callas que deseja ser “Sempre libera”- e ele dobra o canto nas coloraturas, o pássaro e não o benjaminzinho, (a bem da verdade, o passarinho não diferencia o barulho da máquina de lavar, da torneira aberta, do apito da panela de pressão, da voz de qualquer cantor lírico).O rapazinho, diferentemente da avezinha, gosta de dormir com música e apesar de não entender, escuta uma poesia, ou uma cançãozinha de Brahms- Gutte nacht, meine Kinder, essa cantada para todos os três, à noite, “ comme il fault”.
Outra profissão que ele terá, na certa, o pai não erra- é a de mecânico, pois carro é a primeira palavra que ele aprendeu a dizer- a seu modo, certamente. E fica doidinho quando o irmãozinho passa por ele dirigindo o seu “fordinho” vermelho; vai atrás, engatinhando, fazendo-me cuidado; que não se machuque..
Enquanto puder, meu filho, eu te defenderei de todos os perigos. Mas quero te preparar para a vida, porque nem sempre eu poderei colocar uma grade entre as armadilhas da vida e o meu pequeno benjamin.
(Rio de Janeiro,1960)
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Palavras a meu filho
15 de março. Começam as aulas. De manhã, bem cedinho, o corre-corre costumeiro. Hojé, porém, é preciso vigiar mais. Os dentinhos foram bem escovados? O rosto bem lavado? Tomou o café todinho? Não sentirá fome?
- Agora tu te vais, queridinho. Um abraço e um beijo para tua velha que ainda não tem trinta anos.
Vejo-te, mão dada com o papai, o uniformezinho branco- um avental de médico, dizes, a merendeira com o lanche, o sabonete, a escova, toalha, copo.
Teu sorriso cândido, não o posso esquecer. Essa visão me acompanhará pela vida afora, tanto me marcou. Tua mãozinha me acenando adeus… como senti pequeno, o coração!
Tantas vezes te vejo sair assim e não me emociono em especial. Hoje, porém, é diferente. O meu sentimento não o sei definir. Parece que começo a ser sogra. Engraçado, não? Eu procurarei me explicar, filho. Me dá a impressãoi de que hoje te começo a perder. Cada dia um pouquinho mais, até o dia em que me trocarás por ” outra”. Até ontem, tu eras meu. Hoje começas a tomar parte no mundo. hoje é o jardim de infância, amanhã será a Universidade, ou a Academia Militar. O mundo com seus proporcionais encantos à tua pequena idade, aos teus quatro aninhos já te atrai e te começa a levar sempre e cada vez mais, de mim. Será uma coisa mansinha, persistente. Hoje um bocadinho, amanhã mais um pouquinho.
- Serão ciúmes? Talvez sejam!…
Tu chegas da escola; não compreendes a impaciência da mamãe para que laves as mãos, mudes de roupa, guardes teus objetos nos lugares certos; talvez passe por tua cabecinha um pensamento: então! eu já sou um mocinho, estou até na escola, e mamãe ainda quer me tratar como um bebê. Ora! já sei “pintar”, aprendi hoje tanta coisa!
Não compreendes, filho, mas hás de compreender que é preciso método e ordem. Começaste hoje a ter responsabilidade. Tens que te submeter à disciplina, à organização comum. És uma parcela e no entanto já te sentes um homem. Muito bem! então vamos proceder como homem. Vamos aprender a ser responsável em tudo o que fizermos?
Um homem! um homenzinho que dorme agora despreocupado e feliz. Que ainda põe o dedo na boca. Olho-te, sinto orgulho de ti, meu pequeno grande homem. Ainda ontem eras um bebê. Hoje és um escolar. Amanhã… o futuro a Deus pertence, mas antes de seres qualquer coisa, tu serás um homem de bem, porque assim o quer a tua mamãe.( Publicado na revista Bancário/ Rio de Janeiro/1968
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PAGAMENTO DE UMA DÍVIDA
Propositalmente, deixei que passassem as comemorações do mês, o dia que nasceu de um sentimento de gratidão dos filhos. Muito propositadamente, deixei que passassem os dias frios. A chuva, o vento e a tristeza. Que se anunciasse a Primavera de que tanto gostas. Deixei que as flores se abrissem e perfumassem o ar. Que o sol claro enfeitasse as manhãs de setembro. Para então te falar. Falar de ti.
Que és para mim o primeiro e o melhor dos homens. Que simbolizas com as tuas virtudes, o que procurei encontrar num companheiro ideal. Que me puseste nos teus joelhos, quando medrosa, nos meus poucos anos, não compreendendo a tempestade, me apavorava com o ribombar das trovoadas.
Que me contaste tantas histórias bonitas, que me iniciaste no culto dessa divindade a quem tão bem serviste e com tanto ideal: a música. Tu, que me ensinaste a amar à virtude, a honradez: a não me importar com injustiças e ingratidão. Que um dia, quando me viste chorar por incompreendida, me disseste: – Sou o que sou, não o que dizem. Tu, que com palavras simples , nos ditas sentenças profundas, repletas de ensinamento e amor. Que se fosses o dono do mundo conseguirias dele banir a injustiça, a desonestidade, a maldade.
Que sempre soubeste ver o lado azul e claro da vida; lembro-me daquele dia em que triste e desgostosa por nos termos mudado para uma casa que achava feia e pobre, tu me chamaste à janela e me mostraste o por-do-sol, ao longe. E me disseste em seguida: Só o panorama compensa tudo!
Tu, que nunca vimos queixar-se de ninguém. Lembro-te, sempre a fazer algo por alguém. Ajudando e servindo sem alarde. Nunca me esqueço de ti, já não tão jovem, ajudado por teu filho, a carregar, dentro da chuva, do frio, morro acima: um acidentado, um doente, um morto, enfim, quem precisasse do teu concurso.
Lembro-te, à frente dos teus músicos. Vejo-os pararem numa praça e entrarem no coreto. Ouço ainda a “10 de maio”, (48 figuras, madeiras, metais e percussão), executar sob a tua batuta, as belas ouvertures, Poeta e camponês, a minha preferida, a Marcha da Aída, a abertura de Tanhäuser, do Rienzi, e trechos das operetas de Offenbach, de Fritz Lehar, as valsas de Strauss- que tocaste tantas vezes para a “ tua gaivota”. No meio da assistência as minhas palmas sobressaíam entre todas as que ganhavas, é que não só as minhas mãos batiam palmas, mas o meu coração também.
Que sabes amar aos teus netos como soubeste amar aos teus 12 filhos, e aos filhos dos outros. Igualmente a todos, e especialmente a cada um. Beijo, por isso, tuas enrugadas mãos que, tão abençoadas, ainda plantam e colhem rosas.
Hoje, quase no fim da tua estrada, sei que não repousas sobre louros. É preciso, ainda, que faças, que não cesses, que harmonizes uns, que consoles outros. Ainda há que plantar; e que colher. Nem sempre te compreendem- provas amargas que talvez não merecias, mas sou eu quem te diz: não te importes, pai, sou o que sou, não o que dizem. Tua missão grandiosa cumpriste-a com garbo. Não te pesa a consciência ( quantos de nós poderão, como tu, deitar a cabeça e merecer a imediata bênção do sono?)
Deus tem uma medalha de ouro para colocar no teu peito, quando com ele encontrares face a face, porque:
Tu foste um bom. Tu és um justo.
( Esta página foi publicada na revista do Sindicato dos Bancários, como parte de uma seção feminina, da qual era a redatora, em meio a uma receita de rocambole de batatas, um alerta sobre saúde em que se enfatiza o repouso, a boa alimentação, os exercícios físicos, a mente limpa e cultivada como requisitos básicos, um quadro intitulado Seu bebê, seu tesouro em que se comenta o perigo da neurose da maternidade, e o oposto, o descaso, que produz futuros infelizes; a quadra do mês: Se cada beijo valesse/ por um minuto vivido /há quanto tempo,menina/ tu já terias morrido/ - o modelito do mês, e alguma bobagem sobre o tratamento da pele). A página foi lida ao destinatário, como parte das comemorações atrasadas do dia dos pais- e recebida com muita emoção. Que bom a gente poder dizer para uma pessoa querida o quanto a ama, e o que ela significa para nós. É um sentimento poderoso, recordação que me faz voltar no tempo, a 1965, e encontrar, de novo aquele que foi – e continua sendo-o meu guia e mentor.
Os olhos azulados do maestro se embaciaram e ele abraçou e beijou sua filha extremosa. Aquela cena ficou registrada no álbum imortal das lembranças que não se apagam jamais, que as traças não roem, as águas não levam, os ladrões não roubam, e o tempo não consome.
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