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  • MEMENTO( TRECHO DO ROMANCE RÉQUIEM PARA MÁRIO)

    Date: 2009.10.31 | Category: Romance | Response: 0

        Devo muito a Mário.Posso dizer que ele me ensinou grande parte do que sei. Não estou falando de cultura, certamente que freqüentei uma faculdade de Filosofia, nas o que me tem valido mesmo é o curso que fiz, a conselho seu, de administração. Ele me sacudiu, me deu uma direção, a mim que estava cofuso, alienado, vendo o tempo passar.Parece-me ouvir  sua voz:
    -Cara, você precisa entender de coisas práticas. Não é que esteja perdido esse  tempo que você esquentou os bancos universitários. A filosofia é necessária, digo mais,- e ele fazia uma cara muito engraçada: é absolutamente! imprescindivelmente necessária, mas no país   em que nós vivemos, nesse contexto estúpido, você vai pedir esmolas. Sabe quanto ganha um professor universitário com mestrado ou mais? Não?
    …entender bem as leis do mercado; tens que usar tua enorme- ele dizia
    – enorme capacidade de transformar as coisas mais simples em coisas importantes. Com isso desisti de ficar sonhando em reformar o mundo ou tentar entender de onde vim, para quê, porque vim, e para onde vou.
          Como nos conhecemos? Ele trabalhava na redação de um importante jornal que lhe pagava uma miséria para redigir anúncios fúnebres.  Devíamos ter 18 ou 19 anos, a mesma idade, e mais de uma pessoa tem me perguntado, desde logo, se éramos parentes, primos, ou lá o que seja, tal a nossa semelhança,mesma altura e peso, cor dos cabelos, feitio do nariz  E
    quando sabem que não temos o mais remoto parentesco, costumam gracejar a respeito dos passeios dos nossos pais, ou do meu ou do dele: por onde andaram espalhando as suas sementes?
    Fui procurá-lo para providenciar o necrológio de um ex-reitor muito considerado, a Secretaria me encarregou da tarefa e eu não tinha nenhuma prática da redação a ser utilizada. A partir de um papo descontraído conferimos afinidades, saímos para tomar um café, e acabamos jogando conversa fora a tarde inteira. Nossa amizade floresceu imediata. Parecia-me conhecê-lo há séculos. Visitei-o em sua casa, ele ocupava um apartamento pequeníssimo, em companhia de sua tia, aquela pessoa que a gente vê e gosta. Recebeu-me como a um outro sobrinho. Disse não estranhar que  nos entendêssemos tão bem, deveríamos, no mínimo ter sido parentes ” numa outra encarnação” Senhora de muita bondade, de muita intuição, falava coisas que colocavam em cheque o meu materialismo de araque. Sim, porque posar de  descrente, agnóstico, niilista- calhava muito bem a um aprendiz de filósofo. E ela, aquela mulher que nem tinha assim tanta instrução, apenas uma professora rural, era dona de um bom senso que derrubava a empáfia de um materialista convicto, metido a pensador, romântico, afinal, a querer transubstanciar a realidade a todo custo, a querer remediar coisas  irremediáveis, consertar coisas inconcertáveis, definitivas,- apesar do seu sobrinho descobrir em mim potencialidades, que afinal se concretizaram, algumas ,  realmente eu não seria mesmo um bom professor, não me alimentava o fogo da vocação, e para quê pensar a realidade deste país ,se a corrupção é endêmica, epidérmica, nesses que dirigem as coisas?- só matando uma meia-dúzia de sem-vergonhas que fazem as leis – (para os outros)- e não as cumprem.
    Interessante como as coisas acontecem: a partir daquela matéria escrita sobre o figurão morto, o chefe da redação começou a perceber que Mário era um escritor nato. E lhe deu uma promoção: responsável pelo editorial, com significativa melhora no salário- já que a folha era  independente e polêmica. E sorriam para ele, aqueles que antes o tratavam como a qualquer um reporterzinho sem-importância nenhuma, e lhe deram uma sala com ar condicionado, secretária, máquinas de ultima geração para trabalhar. Doutor Castanheira entrava sem bater e lhe dizia: dá-lhe, Mário, solta os bichos!- antes de  lhe repassar a tarefa, a bola, o fato ou o político da vez. E lhe informava que a tiragem do jornal aumentava devido ” a este moço, cheio de talento que descia a lenha nos poderosos, corruptos, sem medo”- pudera, acobertado pelo diretor do jornal! A gratidão é, das qualidades de uma pessoa , talvez a mais nobre , e nesse particular, Mário era bem dotado. Mas eu não fizera nada demais, apenas soprara no ouvido do meu tio, o presidente e maior acionista, uma pequena sugestão, a partir da leitura do tal panegírico do seu amigo, o  figurão da Reitoria.
    O certo é , não tive mérito nenhum na história, apenas me apresentara ao desconhecido repórter como um estudante qualquer, com uma tarefa a cumprir, sem maiores vínculos com a direção do diário, Mário ligou um fato ao outro, ou quem sabe, uma inconfidência  do meu tio. Mas que foi bom, foi, para todo mundo. Eles ganharam um importante jornalista, as vendas cresceram  enormemente, um escritor se revelou, e um pobre e perdido  estudioso da filosofia resolveu colocar os pés em terra firme e descobriu também sua  vocação. E não terminara a cadeia de acontecimentos: um editor  nasceria. 
    Três anos mais tarde , reparei  que ele vivia rabiscando papéis e pedi para ler suas reflexões, achei que eram reflexões. Alguma resistência e cedeu. Espantei-me com o conteúdo e me ofereci para levar aqueles contos à editora em que estagiava, falei com o Muniz, alguns dias depois ele me intimou: chama esse cara aqui, agora! rapaz, há muito não leio nada tão original! isso vai bombar- profetizou,
    Esse livro foi dedicado “À Doralice, com afeto, Mário”.Infelizmente, como aos inúmeros que se seguiram, ela não tomou conhecimento do conteúdo dele.A sabedoria popular  costuma analisar  esses fatos : ” bons dentes em boca de cachorro”.