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Palavras a meu filho
15 de março. Começam as aulas. De manhã, bem cedinho, o corre-corre costumeiro. Hojé, porém, é preciso vigiar mais. Os dentinhos foram bem escovados? O rosto bem lavado? Tomou o café todinho? Não sentirá fome?
- Agora tu te vais, queridinho. Um abraço e um beijo para tua velha que ainda não tem trinta anos.
Vejo-te, mão dada com o papai, o uniformezinho branco- um avental de médico, dizes, a merendeira com o lanche, o sabonete, a escova, toalha, copo.
Teu sorriso cândido, não o posso esquecer. Essa visão me acompanhará pela vida afora, tanto me marcou. Tua mãozinha me acenando adeus… como senti pequeno, o coração!
Tantas vezes te vejo sair assim e não me emociono em especial. Hoje, porém, é diferente. O meu sentimento não o sei definir. Parece que começo a ser sogra. Engraçado, não? Eu procurarei me explicar, filho. Me dá a impressãoi de que hoje te começo a perder. Cada dia um pouquinho mais, até o dia em que me trocarás por ” outra”. Até ontem, tu eras meu. Hoje começas a tomar parte no mundo. hoje é o jardim de infância, amanhã será a Universidade, ou a Academia Militar. O mundo com seus proporcionais encantos à tua pequena idade, aos teus quatro aninhos já te atrai e te começa a levar sempre e cada vez mais, de mim. Será uma coisa mansinha, persistente. Hoje um bocadinho, amanhã mais um pouquinho.
- Serão ciúmes? Talvez sejam!…
Tu chegas da escola; não compreendes a impaciência da mamãe para que laves as mãos, mudes de roupa, guardes teus objetos nos lugares certos; talvez passe por tua cabecinha um pensamento: então! eu já sou um mocinho, estou até na escola, e mamãe ainda quer me tratar como um bebê. Ora! já sei “pintar”, aprendi hoje tanta coisa!
Não compreendes, filho, mas hás de compreender que é preciso método e ordem. Começaste hoje a ter responsabilidade. Tens que te submeter à disciplina, à organização comum. És uma parcela e no entanto já te sentes um homem. Muito bem! então vamos proceder como homem. Vamos aprender a ser responsável em tudo o que fizermos?
Um homem! um homenzinho que dorme agora despreocupado e feliz. Que ainda põe o dedo na boca. Olho-te, sinto orgulho de ti, meu pequeno grande homem. Ainda ontem eras um bebê. Hoje és um escolar. Amanhã… o futuro a Deus pertence, mas antes de seres qualquer coisa, tu serás um homem de bem, porque assim o quer a tua mamãe.( Publicado na revista Bancário/ Rio de Janeiro/1968
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À amiga
Lendo O outro lado das coisas “
Tudo que teu de alma escreve
cara Rejane |Machado,
é da sensibilidade
que nos traz, lúcido e leve,
um voleio pensativo
que vem sempre do outro lado
das coisas iluminada.Stella Leonardos
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O outro lado…
Rejane querida, gostei demais das coisas que você viu do outro lado…
Seu livro já começa a ser interessante a partir da capa. Não o li todo, mas sim “algumas coisas”, segundo seus títulos: “Percalços, “Sinfonia pastoral” (nota-se que a música é um de seus xodós), “Sortilégio”, “O poder da doçura”, “Mon cher ami” e “Cotas pra eles”.
Estou com visita em casa, razão por que não tive tempo para ordenar a leitura. Mas o pouco do que li, confirmou-me o que eu sabia: ser você uma excelente escritora. É direta, fluídica, digamos assim, sem barroquismos, e de uma simpllicidade quase comovente, que encanta e ajuda à percepção.
Torno a agradecer-lhe o carinho do envio.
O beijo gordo, grato e comprido da Helena Ferreira.
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Um olhar
Oi Rejane, tudo bem?
Primeiro de tudo, parabéns pelo coquetel de lançamento do seu livro, foi muito legal. Tô aqui no trabalho e acabei de ler, ou melhor, acabei de sair do mergulho interno que o conto
“Um Olhar” me proporcionou. Gostei demais!!! O seu jeito de escrever é muito gostoso, você transita
com uma facilidade adorável entre os tempos presente & passado do arquiteto, de uma forma macia
e cheia de texturas emocionais. Me senti totalmente dentro do conto, integrada com cada personagem
em suas emoções. Foi viagem emocional da melhor qualidade. Obrigada pelo prazer literário que você me imprimiu nessa manhã tediosa de trabalho.Beijos mil
Regina.
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PAGAMENTO DE UMA DÍVIDA
Propositalmente, deixei que passassem as comemorações do mês, o dia que nasceu de um sentimento de gratidão dos filhos. Muito propositadamente, deixei que passassem os dias frios. A chuva, o vento e a tristeza. Que se anunciasse a Primavera de que tanto gostas. Deixei que as flores se abrissem e perfumassem o ar. Que o sol claro enfeitasse as manhãs de setembro. Para então te falar. Falar de ti.
Que és para mim o primeiro e o melhor dos homens. Que simbolizas com as tuas virtudes, o que procurei encontrar num companheiro ideal. Que me puseste nos teus joelhos, quando medrosa, nos meus poucos anos, não compreendendo a tempestade, me apavorava com o ribombar das trovoadas.
Que me contaste tantas histórias bonitas, que me iniciaste no culto dessa divindade a quem tão bem serviste e com tanto ideal: a música. Tu, que me ensinaste a amar à virtude, a honradez: a não me importar com injustiças e ingratidão. Que um dia, quando me viste chorar por incompreendida, me disseste: – Sou o que sou, não o que dizem. Tu, que com palavras simples , nos ditas sentenças profundas, repletas de ensinamento e amor. Que se fosses o dono do mundo conseguirias dele banir a injustiça, a desonestidade, a maldade.
Que sempre soubeste ver o lado azul e claro da vida; lembro-me daquele dia em que triste e desgostosa por nos termos mudado para uma casa que achava feia e pobre, tu me chamaste à janela e me mostraste o por-do-sol, ao longe. E me disseste em seguida: Só o panorama compensa tudo!
Tu, que nunca vimos queixar-se de ninguém. Lembro-te, sempre a fazer algo por alguém. Ajudando e servindo sem alarde. Nunca me esqueço de ti, já não tão jovem, ajudado por teu filho, a carregar, dentro da chuva, do frio, morro acima: um acidentado, um doente, um morto, enfim, quem precisasse do teu concurso.
Lembro-te, à frente dos teus músicos. Vejo-os pararem numa praça e entrarem no coreto. Ouço ainda a “10 de maio”, (48 figuras, madeiras, metais e percussão), executar sob a tua batuta, as belas ouvertures, Poeta e camponês, a minha preferida, a Marcha da Aída, a abertura de Tanhäuser, do Rienzi, e trechos das operetas de Offenbach, de Fritz Lehar, as valsas de Strauss- que tocaste tantas vezes para a “ tua gaivota”. No meio da assistência as minhas palmas sobressaíam entre todas as que ganhavas, é que não só as minhas mãos batiam palmas, mas o meu coração também.
Que sabes amar aos teus netos como soubeste amar aos teus 12 filhos, e aos filhos dos outros. Igualmente a todos, e especialmente a cada um. Beijo, por isso, tuas enrugadas mãos que, tão abençoadas, ainda plantam e colhem rosas.
Hoje, quase no fim da tua estrada, sei que não repousas sobre louros. É preciso, ainda, que faças, que não cesses, que harmonizes uns, que consoles outros. Ainda há que plantar; e que colher. Nem sempre te compreendem- provas amargas que talvez não merecias, mas sou eu quem te diz: não te importes, pai, sou o que sou, não o que dizem. Tua missão grandiosa cumpriste-a com garbo. Não te pesa a consciência ( quantos de nós poderão, como tu, deitar a cabeça e merecer a imediata bênção do sono?)
Deus tem uma medalha de ouro para colocar no teu peito, quando com ele encontrares face a face, porque:
Tu foste um bom. Tu és um justo.
( Esta página foi publicada na revista do Sindicato dos Bancários, como parte de uma seção feminina, da qual era a redatora, em meio a uma receita de rocambole de batatas, um alerta sobre saúde em que se enfatiza o repouso, a boa alimentação, os exercícios físicos, a mente limpa e cultivada como requisitos básicos, um quadro intitulado Seu bebê, seu tesouro em que se comenta o perigo da neurose da maternidade, e o oposto, o descaso, que produz futuros infelizes; a quadra do mês: Se cada beijo valesse/ por um minuto vivido /há quanto tempo,menina/ tu já terias morrido/ - o modelito do mês, e alguma bobagem sobre o tratamento da pele). A página foi lida ao destinatário, como parte das comemorações atrasadas do dia dos pais- e recebida com muita emoção. Que bom a gente poder dizer para uma pessoa querida o quanto a ama, e o que ela significa para nós. É um sentimento poderoso, recordação que me faz voltar no tempo, a 1965, e encontrar, de novo aquele que foi – e continua sendo-o meu guia e mentor.
Os olhos azulados do maestro se embaciaram e ele abraçou e beijou sua filha extremosa. Aquela cena ficou registrada no álbum imortal das lembranças que não se apagam jamais, que as traças não roem, as águas não levam, os ladrões não roubam, e o tempo não consome.
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Dois trovadores
Dois amigos a realizar um jogo floral. Cerimônia das mais significativas nos albores de um século marcado por todos os tipos de experiências intelectuais. Originalíssima tertúlia. É significativo que este “desafio” tenha por formato o soneto, que tem pelo menos 500 anos de existência!
Estamos lendo Tempo e Contra-tempo, gracioso livro escrito por dois gigantes da poesia piauiense, uma pequena amostra, melhor diríamos, uma síntese da sensibilidade de dois amigos, tão bom um como o outro, numa realização tão bonita, tão nobre, tão alta, que nos comove o coração. Ousamos dizer que há muito não se edita algo tão especial na sua delicadeza de conteúdo.Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura se mostram, nesse exercício, dois mestres do antigo ofício de porta-vozes do Olimpo.
A partir de um retrato numa parede, questionado em sua fidelidade ao modelo:
/ cujo semblante causa-me estranheza/
um poeta, (Hardi) reflete com amargura: já não é a mesma pessoa. Aquele ser aprisionado na moldura é um estranho. E qual a razão da mudança? O tempo, ele conclui. Chico Miguel, o outro bardo, completa e enigmatiza:
/ tempo passante é sol, passado é lua./ e o futuro ? Nem Deus sabe de nada/
O homem é apenas um ser sujeito à temporalidade, e como tal mutável em sua forma. Mas o espírito! Este não é afetado por aquele fator.Apenas pelo seu aspecto metafísico concreto x abstrato. Em sua natureza o ser é uno, indivisível, sujeito porém a variações do seu psiquismo, este por sua vez dependente de fatores imponderáveis, que afetam tremendamente sua vida humana y compris suas disposições para o viver: a temporalidade é marca da condição humana.
Impressiona-nos a qualidade deste jogo entre dois excelentes poetas. Eles manuseiam com grande naturalidade essa forma difícil que é o soneto, observando todas as regras do gênero, cultivando rimas , métrica, musicalidade nos versos, chaves de ouro e demais procedimentos indispensáveis ao bom desempenho da antiga e encantadora forma poética.Ressuma um ar de repentistas em sua dialética, e na técnica da execução, original forma de glosar um mote, tendo-se em vista o histórico da peleja bem esclarecida no excelente prefácio de Altevir Alencar, que nos apresenta as motivações dos dois poetas. Nada haveria mais a acrescentar, senão ressaltar a qualidade intelectual desses dois amigos que tão originalmente se digladiam em altíssimo nível ao redor deste tema: o tempo que passa e que a tudo consome, levando consigo todos os valores da juventude, mas deixando em contrapartida o valioso legado da experiência; reflexionando belamente sobre a categoria mais importante da vida humana a que todos estamos sujeitos, fazendo-nos títeres das injunções do Sein und Zeit.Poesia que a partir da visão de uma imagem alterada pelo tempo fará todo um questionamento sobre a vida humana, seus valores, sua duração, seu destino. E o resultado é um belíssimo estojo onde guardam as mais belas jóias: a poesia deste Tempo e Contra-tempo.
Numa parede o retrato de um jovem. O que leva o poeta Hardi a sentimentos amargos, após compará-lo com o seu reflexo no espelho ao barbear-se. Sente-se ele, um anacrônico simulacro do que foi no passado. Constata a estranheza: não é ele; aquele jovem foi empolgado pelo tempo! E queixa-se disso ao amigo (FM) que o ouve e consola: talvez o poeta não tenha mudado tanto como pensa. À semelhança de algo que não foi bem olhado e pior visto, tal como uma moça malsentada (FM) de quem um olhar bem-educado evita a exposição direta- a moça mal vestida, – é entretanto, olhada ligeiramente, disfarçadamente, . (como a reparou o solerte poeta FM) que acrescenta: o tempo é assim,nem novo nem tão velho/ e ela logo será esquecida, como visão fugidia que não marcou. Importante é o dado concreto que condiciona a vida humana e. o poeta, insiste, não mudou, apenas se olhou mal, enfatiza: como se olha para uma moça “malsentada.”
O primeiro retorna, compromete-se com a explicação do outro:
É bem de ver que a “moça malsentada”/ referida em teu ótimo soneto/ é uma visão que deve ser lembrada/ (…) /e com ela também me comprometo/;
mas continua firme na observação que constata os estragos temporais.FM insiste, não houve, em essência, mudança. E aqui se inscreve a dialética que subjuga o homem: o ser / o parecer- o espaço é que mudou, é outro agora, conseqüência do olhar apressado, enviezado, como se olha rapidamente, olhando sem querer olhar, para aquela moça descuidada, “malsentada”, a tentar proteger-se de olhares invasivos, curiosos, que pretendem ver mais do que o que em realidade aparece. E o olhar ali não se demora, porque não é de bom tom, é praticado de viés, ou melhor, de retroviés (FM) /como quem olha sem estar olhando/ (ainda (pag 8, HF). Alegoria da mocidade que se foi,. FM analisa o belo quadro (…) tempo não morre e suicídio ignora/ mas se acaso morrer renasce e enflora/ na imagem da moça malvestida.
Estivesse ela, a moça malsentada, bem-vestida, ou seja, com decoro e modéstia, não haveria perturbação. Mas o olhar passando sobre ela virá causar desordens, inaugurando um novo tempo, melhor, uma nova dimensão. Enquanto o olhar a percorre, se estende, se amplia, se transforma, ganhando um novo significado: Pois viva a moça, o renascer da vida! (FM ,pg.11)
É um original duelo, do qual não há vencedor nem vencido. Ambos excelentes poetas, de altíssimo nível, elevando a poesia moderna a píncaros inusitados, nunca desprezando suas origens nobilíssimas, mas aproveitando-se de todo o contributo dos séculos, da tradição clássica.. E muito mais significativo, quando se reflete no que a poesia foi modernamente transformada, nesta tão perversa atualidade medíocre.após tantas experiências infelizes, que alargaram desmesuradamente as suas fronteiras, fazendo em seu espaço sagrado penetrar quem dela não tem noção mínima; sacramentando o equívoco, pois o Modernismo não soube defini-la, permitindo que qualquer sandice escrita linha por linha receba o nome de Poesia, e de poetas os seus praticantes. Como resultado, imprimindo-se tanta nulidade sob a vetusta denominação.
Momentos há em que a fina expressão de HF, se restringe mais à norma culta, ao sentido nobre, ao tema elegante, enquanto que F, Miguel prefere a palavra mais coloquial, o estilo mais descontraído, mais”moleque,” menos formal, como quem brinca para diminuir a tensão. O que não é, de nenhum modo, demérito, ao contrário, senhor da palavra, ele pode se dar ao luxo lexical. Até mesmo como quem se ri da desgraça para, nobremente, aliviar a angústia existencial do amigo, minimizá-la numa superioridade de propósitos, como se espera da verdadeira amizade- parecendo não dar tanta importância ao fato que amargura o outro, desvalorizando o inexorável, insustentável peso da realidade, antes a zombar dela, experiente, sabendo que é necessário um olhar mais profundo para alcançar, sob a forma externa, a autêntica verdade, o fundo verdadeiro, a essência, o ôntico.
FM volta à carga
:/quero insistir que a moça malsentada/ é o mais lindo dos quadros que conheço/ e aquele vestir pouco não tem preço,/ faz a curva da idade abençoada/.
Enquanto que Hardi duvida que se possa ver o tempo da mesma maneira que à moça na calçada, entretanto se reanima, reconhece o papel do amor (pág. 12) em cuja mão é bem conduzida /a escrita do presente e do futuro/.
O pragmático F. Miguel refuta a completude dos espelhos que nesse particular tem meu respeito/ pois a mão que os produz, produz sonetos/.
Nihil obstat- decreta. Viver o tempo, não considerar o trabalho/ como um deus? Viver / em vez do dia a noite e seu orvalho/ em vez da terra as luzes lá dos céus/ – receita do poeta para o que não tem remédio. HF não acha possível definir o tempo em nível poético: se ele salva-nos da mesmice, tudo consome, entretanto, na sua caminhada inexorável. Mas FM contradiz: se nós passamos, ele também vai se consumir, vai passar. há de chegar ao fim. A pergunta de Hardi, agora, é: o tempo existe? O peso dele é desumano e o poeta se acaba em dúvidas, concluindo: tempo ganho é também, tempo perdido. A resposta vem, em forma de obra prima, com todas as antíteses possíveis de significado, em nuances várias, cheias de contradições, características do pensamento filosófico: tempo é o que bate em nosso coração ( Chico Miguel). (…)um tempo amado e um tempo de canção(…)um tempo acumulado em tempo-sim,/e um tempo esvaziado em tempo-não- magnífico fecho de magnífico trovador.
Procedimentos poéticos vários, dentro da estrita forma fixa, como movimento dialético, ocorrendo antíteses,veja-se Acerto dos contrários, pág. 40 (de Hardi), com sua magistral conclusão: o silêncio de luz do pensamento.- construções circulares, leixa-pren (procedimento da poética medieval, no retomar de um verso ao final e elaborar a partir dele uma nova seqüência) ritmo regular e métrica rigorosa, a boa e ortodoxa técnica do alexandrino à pág. 53 a demonstrar a versatilidade de Chico Miguel, mas bastante liberdade de expressão no uso das figuras de pensamento e de palavra e na escolha das camadas mórficas e sintáticas.Notar o bom uso das convenções literárias, o amor cortês, a delicadeza com que se aproximam do ideal, o carpe diem, ubi sunt, enfim, esses dois poetas brincam com as expressões, revirando-as pelo avesso, extraindo-lhes todas as possibilidades expressivas. Na pag. 51 veja-se uma construção bilaqueana, a ocorrência de metalinguagem. E em 54/55 voltam a brincar com o mote: do último FM para o primeiro de HF
Dissemos: mote glosado , em que um deles apresenta a idéia e o outro se apropria dela, numa ocorrência sutil dos verbos dicendi, quase à semelhança de um diálogo em que os dois terçam suas armaduras poéticas- e dissemos construção circular. Demos um exemplo à página 47, na qual F Miguel termina sentenciando: o tempo somos nós e o mundo inteiro” que Hardi retoma e inicia à pág. 48 : O tempo somos nós e o mundo inteiro/.
Voltemos também, à graciosa imagem recorrente da moça malsentada / em justa e curta saia/ que faz o versejador Hardi, em estado de sonetear, se sentir igual a ela, desconfortável, tentando proteger-se de olhares cúpidos, safados, mas revejo a cena e nela me aconteço”, utilizando-se da expressão maravilha de visão- salvando-se do esperado naufrágio ao contrário, e gloriosamente atingindo / aquela nobre praia/ com louvor. A distância enorme entre o retrato e o retratado provocando a angústia da constatação da corrosão a que tudo está sujeito, fá-los concluir que o tempo é um contratempo/ e masoquísticamente chorando pitangas: Que saudade de nós daquele tempo! FM retoma este sentimento e HF aceita o irremediável, as escoriações que o tempo causou ao corpo: afetando uma alma diamantina”.
Concluem que o mais importante é a permanência da poesia e o maior valor a amizade que o tempo consolidou. Chico Miguel liga o carro da poesia. Sua visão pragmática conclui que não há despedida, que a gente volta sempre ao mesmo tempo, o que quer dizer: permanece a chama acesa da poesia, que consola, honra e preserva.
Obra-prima de lavor e invenção, de inspiração superior, esse belíssimo livro, que mereceria figurar em todas as bancas e livrarias, fossem mais sensíveis ou inteligentes os responsáveis pela divulgação da boa literatura brasileira. De parabéns esse pequeno grande Estado que tão grandes poetas produz. De parabéns nós todos, brasileiros, por podermos contar com uma obra que honra nosso passado de excelentes escritores , de grandes artistas do verso, e que nos permite ter esperanças ao ler obras desse quilate, em meio à enxurrada de equívocos editados modernamente. .Rejane Machado ( ano da graça de 2009)
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MEMENTO( TRECHO DO ROMANCE RÉQUIEM PARA MÁRIO)
Devo muito a Mário.Posso dizer que ele me ensinou grande parte do que sei. Não estou falando de cultura, certamente que freqüentei uma faculdade de Filosofia, nas o que me tem valido mesmo é o curso que fiz, a conselho seu, de administração. Ele me sacudiu, me deu uma direção, a mim que estava cofuso, alienado, vendo o tempo passar.Parece-me ouvir sua voz:
-Cara, você precisa entender de coisas práticas. Não é que esteja perdido esse tempo que você esquentou os bancos universitários. A filosofia é necessária, digo mais,- e ele fazia uma cara muito engraçada: é absolutamente! imprescindivelmente necessária, mas no país em que nós vivemos, nesse contexto estúpido, você vai pedir esmolas. Sabe quanto ganha um professor universitário com mestrado ou mais? Não?
…entender bem as leis do mercado; tens que usar tua enorme- ele dizia – enorme capacidade de transformar as coisas mais simples em coisas importantes. Com isso desisti de ficar sonhando em reformar o mundo ou tentar entender de onde vim, para quê, porque vim, e para onde vou.
Como nos conhecemos? Ele trabalhava na redação de um importante jornal que lhe pagava uma miséria para redigir anúncios fúnebres. Devíamos ter 18 ou 19 anos, a mesma idade, e mais de uma pessoa tem me perguntado, desde logo, se éramos parentes, primos, ou lá o que seja, tal a nossa semelhança,mesma altura e peso, cor dos cabelos, feitio do nariz E
quando sabem que não temos o mais remoto parentesco, costumam gracejar a respeito dos passeios dos nossos pais, ou do meu ou do dele: por onde andaram espalhando as suas sementes?
Fui procurá-lo para providenciar o necrológio de um ex-reitor muito considerado, a Secretaria me encarregou da tarefa e eu não tinha nenhuma prática da redação a ser utilizada. A partir de um papo descontraído conferimos afinidades, saímos para tomar um café, e acabamos jogando conversa fora a tarde inteira. Nossa amizade floresceu imediata. Parecia-me conhecê-lo há séculos. Visitei-o em sua casa, ele ocupava um apartamento pequeníssimo, em companhia de sua tia, aquela pessoa que a gente vê e gosta. Recebeu-me como a um outro sobrinho. Disse não estranhar que nos entendêssemos tão bem, deveríamos, no mínimo ter sido parentes ” numa outra encarnação” Senhora de muita bondade, de muita intuição, falava coisas que colocavam em cheque o meu materialismo de araque. Sim, porque posar de descrente, agnóstico, niilista- calhava muito bem a um aprendiz de filósofo. E ela, aquela mulher que nem tinha assim tanta instrução, apenas uma professora rural, era dona de um bom senso que derrubava a empáfia de um materialista convicto, metido a pensador, romântico, afinal, a querer transubstanciar a realidade a todo custo, a querer remediar coisas irremediáveis, consertar coisas inconcertáveis, definitivas,- apesar do seu sobrinho descobrir em mim potencialidades, que afinal se concretizaram, algumas , realmente eu não seria mesmo um bom professor, não me alimentava o fogo da vocação, e para quê pensar a realidade deste país ,se a corrupção é endêmica, epidérmica, nesses que dirigem as coisas?- só matando uma meia-dúzia de sem-vergonhas que fazem as leis – (para os outros)- e não as cumprem.
Interessante como as coisas acontecem: a partir daquela matéria escrita sobre o figurão morto, o chefe da redação começou a perceber que Mário era um escritor nato. E lhe deu uma promoção: responsável pelo editorial, com significativa melhora no salário- já que a folha era independente e polêmica. E sorriam para ele, aqueles que antes o tratavam como a qualquer um reporterzinho sem-importância nenhuma, e lhe deram uma sala com ar condicionado, secretária, máquinas de ultima geração para trabalhar. Doutor Castanheira entrava sem bater e lhe dizia: dá-lhe, Mário, solta os bichos!- antes de lhe repassar a tarefa, a bola, o fato ou o político da vez. E lhe informava que a tiragem do jornal aumentava devido ” a este moço, cheio de talento que descia a lenha nos poderosos, corruptos, sem medo”- pudera, acobertado pelo diretor do jornal! A gratidão é, das qualidades de uma pessoa , talvez a mais nobre , e nesse particular, Mário era bem dotado. Mas eu não fizera nada demais, apenas soprara no ouvido do meu tio, o presidente e maior acionista, uma pequena sugestão, a partir da leitura do tal panegírico do seu amigo, o figurão da Reitoria.
O certo é , não tive mérito nenhum na história, apenas me apresentara ao desconhecido repórter como um estudante qualquer, com uma tarefa a cumprir, sem maiores vínculos com a direção do diário, Mário ligou um fato ao outro, ou quem sabe, uma inconfidência do meu tio. Mas que foi bom, foi, para todo mundo. Eles ganharam um importante jornalista, as vendas cresceram enormemente, um escritor se revelou, e um pobre e perdido estudioso da filosofia resolveu colocar os pés em terra firme e descobriu também sua vocação. E não terminara a cadeia de acontecimentos: um editor nasceria.
Três anos mais tarde , reparei que ele vivia rabiscando papéis e pedi para ler suas reflexões, achei que eram reflexões. Alguma resistência e cedeu. Espantei-me com o conteúdo e me ofereci para levar aqueles contos à editora em que estagiava, falei com o Muniz, alguns dias depois ele me intimou: chama esse cara aqui, agora! rapaz, há muito não leio nada tão original! isso vai bombar- profetizou,
Esse livro foi dedicado “À Doralice, com afeto, Mário”.Infelizmente, como aos inúmeros que se seguiram, ela não tomou conhecimento do conteúdo dele.A sabedoria popular costuma analisar esses fatos : ” bons dentes em boca de cachorro”. -
AMADA AMIGA
A muitos quilômetros de distância
nos conhecemos através de cartas
e de livros. O tempo – essa lagarta
lenta – passou polindo nossa ânsia.Creusa, Maria, Dóris, Ana, Marta…
Dizer seu nome não tem relevância.
A amizade repousa na constância,
e desse bem meu coração se farta!Vivendo intensa vida de cultura
cada um a seguir, por sua estrada,
o mesmo ideal: literatura,Só hoje, numa festa inesperada,
meu peito se enche de alegria pura:
aqui ao lado está a amiga amada.( do grande poeta HARDI FILHO, da Academia de Letras de Teresina, celebrando a visita de sua colega e aamiga Rejane Machado, em 3 de outubro de 2009)
Hardi Filho é um nome bastante conhecido em todo o Nordeste, e especialmente no estado do Piauí, onde existe uma “plêiade” de intelectuais que mereceriam ser mais conhecidos – e divulgados- no resto do Brasil. Dele e de Francisco Miguel de Moura, outro importantíssimo autor de mais de 30 livros, escritor fecundo, que sendo excelente poeta trafega igualmente bem em vários outros gêneros ( contos, romances, ensaios)- repito, dele, Hardi e Chico Miguel, tive oportunidade de fazer um estudo sobre o mais recente trabalho dos dois. Um livro de sonetos, esta forma que para muitos está demodée, entretanto segue sendo um dos mais encantadores – e difíceis!- gêneros literários. Da Academia fizeram parte, entre outros, Da Costa e Silva e Francisco Otaviano.Lá tivemos uma principesca recepção.
O digno presidente, Senhor Manfredi nos recebeu gentilmente, deixando-nos inteiramente à vontade. Gratas emoções foram o encontro com o emérito Professor Celso Barros, a quem fiquei devendo um ensaio sobre DIAS da COSTA, e o acadêmico mais velho do estado, uma gracinha de pessoa, com todo o respeito que se deve a uma pessoa de 94 anos, curioso a respeito da visitante carioca -
ADVERTÊNCIA AO LEITOR
A utilização do discurso indireto livre, e seu competente monólogo interior,- o chamado fluxo de consciência, deve-se esclarecer, – antes de se constituir sofisticado método de escrita – é uma profunda esperteza do Autor.
Porque assim procedendo, ele se defende de certas encruzilhadas que alguns leitores poderiam lhe preparar. e não está obrigado a responder perguntas às quais não saberia dar solução.
Quando há um narrador que conduz a narrativa dando informações ao leitor, fazendo ele mesmo o retrato dos seus personagens e conduzindo-os daqui prá ali, exige-se da sua omnisciência esclarecimentos sobres fatos e pensamentos das suas criaturas. Então abre-se uma discussão inimaginável sobre a coerência ou não daquelas ações, sobre a validade delas, sobre a verossimilhança e mil outros aspectos que envolvem a criação de um universo ficcional.
O que não se dá com o modo impressionista de narrar, em que o Autor não sabe de antemão tudo o que aconteceu ou vai acontecer ao personagem e portanto não lhe tira e nem ao leitor as chances de surpreender-se com a vida, com o fluir dos acontecimentos do mundo ficcional que criou.
Antes de começar a ler este livro, o leitor deve estar prevenido de que:
1) os personagens são seres de carne e osso, dotados de sensações próprias. São reais, portanto, dentro da sua realidade virtual;
2) sendo reais e dotados de autonomia e independência ( que lhes é dada pelo próprio modo impressionista utilizado para a narração ) têm total direito às suas próprias impressões e sentimentos, cabendo-lhes inteiramente e somente a eles a responsabilidade de suas ações, reações e pensamentos : frenéticos ou blasés, sutis ou endemoninhados, pretensiosos ou arrogantes, eles têm toda a liberdade para apreciar a realidade ao seu modo, e sentir as coisas de acordo com o seu temperamento, enfim, de viver como lhes agrade ou como lhes seja possível, dentro do seu quadro de referência;
3) o Autor prefere não opinar, não conduzir a narrativa,não interferir na dinâmica da história. Cada aspecto da natureza ou cada reação desencadeada por algum acontecimento é visto e apresentado- sempre a partir da ótica do personagem que está em foco- assim, se o espaço exterior é belo, ou feio, ou triste, não é o Autor quem o diz; é o personagem que assim o interpreta; da mesma forma se uma ação é má, se é ou não correta, moral, antiética, o que seja, – isto lhe é completamente indiferente.
Dirá, então, o leitor: para quê um narrador? Se ele não conduz os personagens, não nos informa sobre eles, não dá sua opinião; criou-os e os soltou no mundo (da ficção, claro, dentro da realidade da literatura) – ele seria uma figura dispensável.
Respondo: alguém teria que juntar as letras e os sons, organizar uma certa sintaxe, dispondo uma tênue trama de uma certa maneira que ,como diria um personagem secundário, surdo e míope, “formasse um todo agradável”, sem espinhos, sem choques. Esse alguém é, teria que ser, o Autor do livro. E este, o seu único mérito.
Rejane Machado
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DIMENSÃO DE UMA CONTISTA
Francisco Miguel de Moura (da Academia Piauiense de Letras)
Quando aparece um contista autêntico, que não se vale do veículo artificiosamente para cobrir deficiências outras,digamos , de narrador, não há como não aplaudir, pois a raridade em boa literatura é norma. Apontamos hoje, o caso de REJANE MACHADO, premiada por primeira vez em 1969 no Concurso “Orlando Dantas”, do Diário de Notícias/INL, mas somente em 1972 aparecida em livro com A dimensão das pedras.
A primeira coisa que temos a apontar na ficção de Rejane diz respeito à temática, muito simples, muito comum- diríamos -à primeira vista, – e que é marca de toda sua escrita, desde então. É uma narrativa que em muitas e muitas passagens ressumbra o gosto de crônica, não me referindo, está claro- àquela crônica que refaz um momento lírico qualquer,delícia de muito poeta menor em prosa.A crônica de que falo aqui é aquela que escava no quotidiano a matéria e a traduz em linguagem correntia e legível, muito do feitio da prosa de MACHADO de ASSIS ficcionista,essa crônica que diz muita coisa difícil numa história desenvolta, quase a-literária no bom sentido do termo.
Em segundo lugar, devo dizer que o toque de personalidade não se dará com estratagemas e charadas. Esse toque personalíssimo da linguagem que chamamos de estilo, percebemos sutilmente fluir no discurso de REJANE MACHADO, transfigurado em ternura e humanismo sem pieguices: eis a medida da sua escritura.
O livro tem unidade de estilo e unidade temática centrado em temas da solidão, desencadeia mistérios da alma, numa desconversa, num descontraimento quase total, dando-nos aquele sabor de crônica de que falamos acima. Põe, assim, o tortuoso das consciências a descoberto. Quase a descoberto, digo,não para minimizar a expressão, certamente,porque em toda sua prosa encontramos a ternura dos pequenos acontecimentos familiares dentro de uma atmosfera que nos sensibiliza e nos afeiçoa.
Prosa de mulher? Sim, mas a autora sabe encontrar um plano ideal onde todos nos igualamos, aquele terreno da dor íntima,do medo, da solidão, da procura do compreender e do ser compreendido. Em certas passagens- e não muitas- sentimos que estamos realmente vivos, num mundo onde há pessoas irmãs no sofrimento e na dor mais profunda.Aqui e ali, uma pitadinha de filosofia que não chega afetar o todo, mas só entremostra a ensaísta que é : A vida é luta e só os fracos tombam, As cinzas, quentes ainda, dos acontecimentos encarregavam-se de mostrar que nada há de mais frágil que a condição humana, e que a vida é apenas um momento.
É desses momentos que a Autora tira o máximo para seus contos.A dimensão do homem, nos seus pequenos-grandes dramas diuturnos, vitais, em música lenta e melodia imperceptível, é-nos oferecida nas 131 páginas de A dimensão das pedras, pedras que formam o arcabouço onde cada pessoa curte sua própria vida e sua própria solidão e esmagamento, atestando desamores, cobiças e intenções perversas ou desonestas, que é o próprio do individualismo burguês no nosso contexto cultural.
“Caderno de Divulgação Cultural” IN: O Estado, Teresina, Piauí, 22/12/74,p.6
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